Duas pessoas podem ter o mesmo peso, a mesma altura e até o mesmo IMC — e ainda assim apresentar riscos metabólicos bastante diferentes.
Uma das razões é onde a gordura está armazenada.
A gordura que conseguimos “beliscar” sob a pele é chamada de gordura subcutânea. Já a gordura visceral fica mais profundamente no abdome, ao redor de órgãos como fígado, intestino e pâncreas. E ela merece atenção porque é metabolicamente mais ativa e está fortemente associada a resistência à insulina, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e maior risco cardiovascular.
O que é gordura visceral?
Gordura corporal não é toda igual. O tecido adiposo é um órgão ativo, capaz de produzir hormônios, mediadores inflamatórios e outras substâncias que influenciam o metabolismo.
A gordura visceral fica dentro da cavidade abdominal. Quando aumenta demais, pode liberar maior quantidade de ácidos graxos e substâncias inflamatórias diretamente na circulação que chega ao fígado. Esse processo contribui para resistência à insulina, aumento de triglicerídeos, acúmulo de gordura no fígado e alterações cardiovasculares.
Por isso, uma pessoa pode não parecer “muito acima do peso” e ainda assim apresentar excesso de gordura visceral e alterações metabólicas.
Então a barriga não é apenas uma questão estética?
Exatamente.
O formato corporal não define sozinho a saúde de ninguém, e não devemos transformar circunferência abdominal em julgamento estético. Mas, do ponto de vista médico, o acúmulo de gordura na região central pode ser um marcador importante de risco cardiometabólico.
É por isso que diretrizes mais recentes de obesidade têm valorizado não apenas o IMC, mas também medidas como circunferência abdominal e relação cintura/altura.
O novo framework da European Association for the Study of Obesity (EASO), por exemplo, recomenda medir a cintura em pessoas com IMC abaixo de 35 kg/m² como marcador de acúmulo visceral e risco cardiometabólico.
Por que o IMC sozinho pode não contar toda a história?
O IMC é útil para avaliação populacional e continua sendo uma medida importante na prática clínica. Mas ele tem limitações.
Ele não mostra:
- quanto do peso é gordura;
- quanto é massa muscular;
- onde essa gordura está localizada;
- se existe excesso de gordura visceral;
- se já existem complicações metabólicas.
Uma mulher com IMC aparentemente “normal”, por exemplo, pode ter baixa massa muscular e maior concentração de gordura abdominal. Outra pessoa com IMC maior pode ter mais massa muscular e menor risco metabólico do que o número isolado sugeriria.
Por isso, a avaliação moderna da obesidade precisa olhar para composição corporal, distribuição de gordura e presença de doenças associadas, e não apenas para o peso.
A cintura pode ajudar a estimar gordura visceral?
Sim. Tomografia e ressonância conseguem medir gordura visceral com mais precisão, mas não são necessárias para a maioria das pessoas.
Na prática clínica, a circunferência abdominal é uma ferramenta simples, barata e útil. Outra medida que vem ganhando espaço é a relação cintura/altura.
Uma regra prática usada em algumas diretrizes é tentar manter a cintura abaixo de aproximadamente metade da altura. Mas esse valor não deve ser interpretado isoladamente, porque sexo, idade, etnia e composição corporal modificam a relação entre gordura visceral e risco metabólico.
Uma revisão sistemática de 2024 mostrou justamente que não existe um único ponto de corte de gordura visceral capaz de representar todas as populações.
O que a gordura visceral pode causar?
O excesso de gordura visceral está relacionado a uma série de alterações, entre elas:
- resistência à insulina;
- pré-diabetes e diabetes tipo 2;
- aumento dos triglicerídeos;
- redução do HDL em alguns contextos;
- hipertensão arterial;
- esteatose hepática associada à disfunção metabólica;
- síndrome metabólica;
- maior risco cardiovascular.
Esse conjunto de alterações ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso podem ter perfis de saúde completamente diferentes.
Se quiser entender melhor esse conjunto de fatores, veja também o artigo sobre síndrome metabólica.
E por que isso é especialmente importante para mulheres após os 40?
Durante a transição para a menopausa, muitas mulheres percebem que a distribuição do corpo muda mesmo quando o peso não aumenta muito.
Parte dessa mudança está relacionada ao envelhecimento e parte às alterações hormonais da menopausa. Estudos mostram tendência a maior acúmulo de gordura abdominal e visceral nessa fase.
Isso significa que uma mulher pode manter praticamente o mesmo peso da balança, mas perder massa muscular e acumular mais gordura na região central.
É justamente por isso que, nessa fase da vida, olhar apenas para “quantos quilos ganhou” pode ser pouco informativo. Circunferência abdominal, força, massa muscular, atividade física e marcadores metabólicos passam a ter ainda mais importância.
É possível reduzir gordura visceral?
Sim.
A boa notícia é que a gordura visceral responde ao tratamento da obesidade e às mudanças de estilo de vida.
Uma grande revisão com 84 estudos randomizados mostrou que exercício aeróbico, treinamento de força, combinação dos dois e treinamento intervalado de alta intensidade podem reduzir gordura visceral em pessoas com sobrepeso e obesidade.
Outra meta-análise mostrou que tanto exercício quanto restrição energética reduzem gordura visceral.
Na prática, o objetivo não deve ser descobrir um “exercício que queima barriga”, porque não existe redução localizada de gordura de forma seletiva. O que funciona é reduzir o excesso de gordura corporal e melhorar o metabolismo como um todo.
Quais estratégias realmente ajudam?
| Estratégia | Por que ajuda |
|---|---|
| Perder peso quando há excesso de adiposidade | A redução global de gordura costuma diminuir também a gordura visceral |
| Exercício aeróbico | Melhora condicionamento, gasto energético e pode reduzir gordura visceral |
| Treinamento de força | Ajuda a preservar ou aumentar massa muscular e melhora função metabólica |
| Alimentação adequada | Facilita controle energético, saciedade e qualidade metabólica |
| Sono adequado | Ajuda a regular fome, comportamento alimentar e recuperação |
| Tratamento médico da obesidade quando indicado | Pode produzir perdas de peso clinicamente relevantes e melhorar complicações metabólicas |
Preciso fazer HIIT para perder gordura visceral?
Não.
Algumas meta-análises recentes colocam o treinamento intervalado de alta intensidade entre as estratégias com maior efeito médio sobre gordura visceral. Mas isso não significa que HIIT seja obrigatório ou melhor para todas as pessoas.
Exercício aeróbico moderado, musculação e a combinação dos dois também apresentam benefícios.
O melhor exercício é aquele que pode ser realizado com segurança, progressão adequada e consistência. Pessoas sedentárias, com obesidade importante, limitações articulares ou doenças cardiovasculares podem precisar de uma estratégia diferente.
Veja também: qual é o melhor exercício para tratar a obesidade?
E medicamentos para obesidade reduzem gordura visceral?
Quando há indicação médica, tratamentos farmacológicos que produzem perda de peso significativa também podem reduzir depósitos de gordura visceral e melhorar marcadores metabólicos.
Mas o objetivo do tratamento não deve ser apenas “diminuir a barriga”. A decisão de usar medicação depende do diagnóstico, do grau de adiposidade, das complicações associadas, de contraindicações e de uma estratégia de longo prazo.
O tratamento completo da obesidade deve envolver alimentação, atividade física, preservação de massa muscular, sono, comportamento alimentar e acompanhamento clínico.
Saiba mais na página sobre tratamento da obesidade e emagrecimento.
Como saber se minha gordura abdominal está diminuindo?
A balança pode ajudar, mas não é a única ferramenta.
Durante o acompanhamento, vale observar:
- peso ao longo do tempo;
- circunferência abdominal;
- composição corporal quando indicada;
- força e desempenho físico;
- pressão arterial;
- glicemia e hemoglobina glicada;
- triglicerídeos e colesterol;
- marcadores de saúde hepática.
Uma pessoa pode melhorar metabolicamente mesmo antes de atingir um “peso ideal” imaginário.
Checklist: sua avaliação está olhando além da balança?
- Você sabe sua circunferência abdominal?
- Seu peso aumentou ou foi principalmente a cintura que mudou?
- Sua massa muscular está sendo acompanhada?
- Você pratica exercício aeróbico e treinamento de força?
- Glicemia, triglicerídeos, pressão e fígado foram avaliados?
- Seu sono e comportamento alimentar estão sendo considerados?
- Na perimenopausa ou menopausa, sua mudança de composição corporal foi avaliada de forma específica?
Um plano prático para começar a olhar além da balança
- Meça sua cintura sempre no mesmo ponto e nas mesmas condições, sem prender a respiração ou apertar a fita.
- Observe a tendência ao longo de semanas, e não uma medida isolada.
- Inclua força e movimento na rotina: musculação, caminhada, bicicleta ou outra atividade adequada à sua condição clínica.
- Revise sono, alimentação e álcool, porque todos podem interferir na saúde metabólica e no controle do peso.
- Se a cintura aumentou, mesmo com pouco ganho de peso, vale discutir composição corporal e exames metabólicos com seu médico, especialmente após os 40 anos e na transição para a menopausa.
O objetivo não é medir a cintura todos os dias nem criar mais uma fonte de ansiedade. É usar essa informação como parte de um quadro maior: peso, composição corporal, força, pressão arterial, glicemia, lipídios, fígado e estilo de vida.
Em resumo
Gordura abdominal não é apenas uma questão estética.
A gordura visceral é metabolicamente ativa e está associada a maior risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, síndrome metabólica, esteatose hepática e doença cardiovascular.
Por isso, avaliar obesidade apenas pelo número da balança ou pelo IMC pode deixar informações importantes de fora.
A estratégia mais eficaz não é buscar um método para “secar barriga”, mas tratar a adiposidade de forma global: reduzir gordura visceral, preservar massa muscular, melhorar condicionamento, sono e saúde metabólica.
O objetivo não é apenas pesar menos. É ter um corpo metabolicamente mais saudável.
Referências
- European Association for the Study of Obesity — framework para diagnóstico e manejo da obesidade
- Bennett JP et al. Visceral adipose tissue thresholds and metabolic syndrome risk. Obesity Reviews. 2024.
- Lee MJ, Kim J. Pathophysiology of visceral adipose tissue in cardiometabolic disease. 2024.
- Chen X et al. Exercise and visceral adipose tissue: systematic review and network meta-analysis. Obesity Reviews. 2024.
- Palacios S et al. Obesity and menopause. Gynecological Endocrinology. 2024.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

