Mounjaro e Wegovy durante a amamentação: pode usar? O que mudou nas evidências em 2026

Uma mulher teve o bebê há alguns meses, ganhou peso durante a gestação, talvez tenha tido diabetes gestacional, está amamentando e começa a pensar em retomar o tratamento da obesidade. Surge então uma dúvida muito prática: Mounjaro e Wegovy durante a amamentação podem ser usados com segurança?

Até pouco tempo atrás, essa conversa terminava quase sempre com um “não temos dados suficientes”. Em 2026, a situação ficou mais interessante. Novos dados humanos sobre tirzepatida e semaglutida começaram a mostrar que a quantidade desses medicamentos que chega ao leite materno pode ser muito baixa ou até indetectável. Ao mesmo tempo, sociedades e bases de referência continuam pedindo cautela porque ainda sabemos pouco sobre os efeitos em bebês, especialmente recém-nascidos.

Ou seja: a resposta não virou simplesmente “pode”. Ela ficou mais individualizada.

Por que esse assunto apareceu agora?

Em 1º de outubro de 2026, o JAMA publicou um estudo sobre o início de agonistas do receptor de GLP-1 no período pós-parto entre mulheres nos Estados Unidos. O trabalho não foi desenhado para dizer se esses medicamentos são seguros durante a amamentação. Ele mostra outra coisa: o uso depois da gravidez está crescendo e passou a fazer parte de uma situação clínica real, especialmente em mulheres com obesidade e maior risco metabólico.

Isso faz sentido. A gravidez provoca mudanças importantes no peso, na sensibilidade à insulina e no metabolismo. Mulheres que tiveram diabetes gestacional, por exemplo, permanecem com risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 nos anos seguintes. Além disso, nem todas retornam ao peso anterior à gestação.

Mas “pós-parto” não significa automaticamente “amamentando”. E essa diferença muda completamente a decisão. Por isso, falar em Mounjaro e Wegovy durante a amamentação exige separar claramente o que sabemos sobre o pós-parto do que sabemos sobre a lactação.

Gravidez e amamentação não são a mesma coisa

Durante a gravidez, medicamentos como semaglutida e tirzepatida não são usados para emagrecimento. A semaglutida deve ser interrompida antes de uma gestação planejada; a bula brasileira do Wegovy orienta suspensão pelo menos dois meses antes, por causa da longa meia-vida do medicamento.

Na amamentação, a pergunta é diferente: quanto do medicamento passa para o leite? Quanto desse medicamento seria absorvido pelo intestino do bebê? E existe alguma evidência de efeito sobre crescimento, desenvolvimento ou produção de leite?

É justamente nessa área que os novos estudos começaram a acrescentar informação. Ao discutir Mounjaro e Wegovy durante a amamentação, é importante analisar cada medicamento separadamente, porque as evidências disponíveis não são exatamente iguais.

O que já sabemos sobre Mounjaro e tirzepatida no leite materno?

A atualização de agosto de 2026 da base LactMed, mantida pela National Library of Medicine dos Estados Unidos, traz um dado bastante específico.

Em um estudo de lactação, 11 mulheres receberam uma dose subcutânea única de 5 mg de tirzepatida. Foram analisadas 171 amostras de leite. Em 164 delas, a tirzepatida não foi detectada. Nas sete amostras restantes, a quantidade total encontrada ao longo de 28 dias correspondeu a menos de 0,02% da dose recebida pela mãe.

Isso é pouco. Além disso, a tirzepatida é uma molécula peptídica grande. Mesmo que uma pequena quantidade chegue ao leite, existe a expectativa de que boa parte seja degradada no aparelho digestivo do bebê e tenha absorção oral muito limitada.

Mas aqui existe uma limitação que não pode ser ignorada: o estudo avaliou uma dose única de 5 mg. Uma mulher em tratamento semanal contínuo atinge concentrações diferentes depois de várias aplicações. Portanto, não é correto pegar o número de 0,02% e concluir que essa será sempre a exposição de um bebê durante meses de tratamento.

A LactMed considera que a tirzepatida, quando realmente necessária para a mãe, não é por si só motivo obrigatório para interromper a amamentação, mas recomenda cautela — sobretudo em recém-nascidos e prematuros.

E a semaglutida, presente no Wegovy?

Para a semaglutida injetável existe outro pequeno estudo humano. Oito mulheres que utilizavam doses entre 0,25 e 1 mg por semana coletaram amostras de leite antes e depois da aplicação. A semaglutida não foi detectada em nenhuma das amostras.

Os bebês tinham entre 4 e 23 meses e recebiam alimentação mista. Durante o período observado, não foram relatados problemas de crescimento ou desenvolvimento atribuídos ao medicamento.

Novamente, o resultado é tranquilizador, mas pequeno. Oito mulheres não são suficientes para definir segurança para todas as lactantes. Além disso, um bebê de 10 meses que já come outros alimentos é uma situação bastante diferente de um recém-nascido de duas semanas em aleitamento exclusivo. Esse é um dos motivos pelos quais Mounjaro e Wegovy durante a amamentação não devem ser avaliados apenas pela presença ou ausência do medicamento no leite.

A LactMed atualmente diferencia também a semaglutida injetável da semaglutida oral. Algumas apresentações orais contêm um facilitador de absorção chamado SNAC, que levanta outra preocupação durante a lactação. Por isso, a base considera apenas a forma injetável como opção que pode ser discutida nesse contexto.

Então por que a bula do Wegovy no Brasil ainda diz para não usar durante a amamentação?

Porque bula e revisão científica não são exatamente a mesma coisa.

A bula profissional brasileira atual do Wegovy permanece conservadora: informa que o risco para a criança não pode ser excluído e orienta que o medicamento não seja usado durante a amamentação.

Isso não significa que os novos estudos estejam “errados”. Significa que existe um intervalo entre uma evidência emergente, a interpretação das bases científicas e a atualização formal das informações regulatórias.

Para a prática clínica no Brasil, essa diferença importa. O médico não deve simplesmente dizer “um estudo mostrou que não aparece no leite, então está liberado”. Ao avaliar Mounjaro e Wegovy durante a amamentação, é preciso considerar a bula vigente, a força limitada dos dados e a situação individual da mulher e do bebê.

Um exemplo ajuda a entender

Imagine duas mulheres.

A primeira está com três semanas de pós-parto, amamenta exclusivamente um bebê prematuro e está conseguindo manter uma alimentação bastante restrita porque sente pouca fome.

A segunda está oito meses após o parto, amamenta parcialmente, o bebê já recebe alimentação complementar, e ela apresenta obesidade importante, hipertensão e história de diabetes gestacional.

A pergunta “pode usar tirzepatida durante a amamentação?” é a mesma. Mas o contexto é completamente diferente.

No primeiro cenário, a preocupação com nutrição materna, produção de leite e exposição de um recém-nascido prematuro pesa muito. No segundo, também existe um risco metabólico relevante para a mãe e uma exposição potencialmente menor do bebê ao leite materno.

É por isso que um consenso internacional publicado em 2026 recomenda que o uso de medicamentos baseados em incretinas durante a amamentação seja avaliado individualmente, equilibrando os benefícios conhecidos da amamentação, a necessidade clínica materna e a incerteza ainda existente sobre efeitos no bebê.

Existe outro risco que quase ninguém comenta: a própria nutrição da mãe

Esse ponto é particularmente importante no pós-parto. A discussão sobre Mounjaro e Wegovy durante a amamentação não envolve apenas a exposição do bebê ao medicamento, mas também a capacidade da mãe de manter uma alimentação adequada.

Tirzepatida e semaglutida podem reduzir bastante a fome e a ingestão alimentar. Isso é útil no tratamento da obesidade, mas uma mulher que está produzindo leite tem demanda energética e nutricional aumentada.

Se o medicamento provocar náusea, vômito, aversão alimentar ou uma redução muito acentuada da ingestão, o problema não é apenas “ela comer menos calorias”. É preciso pensar em proteína, ferro, vitamina B12, folato, cálcio, vitamina D, hidratação e no estado nutricional global.

O consenso de 2026 chama atenção justamente para essa lacuna: ainda não temos bons estudos avaliando composição do leite, produção de leite e consequências nutricionais de longo prazo quando esses medicamentos são usados durante a lactação.

Para quem está em tratamento da obesidade e do emagrecimento, isso reforça uma ideia importante: o objetivo não deve ser apenas fazer o peso cair rapidamente. A estratégia precisa proteger saúde, composição corporal e nutrição.

E se a mulher pretende engravidar novamente?

Essa pergunta precisa entrar na consulta antes de iniciar o tratamento.

A semaglutida deve ser interrompida com antecedência antes de uma gravidez planejada. A tirzepatida também não é medicamento para emagrecimento durante a gestação e precisa ser suspensa quando existe planejamento reprodutivo.

Há ainda um detalhe importante com a tirzepatida: ela retarda o esvaziamento do estômago e pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais hormonais orais durante o início do tratamento e após aumentos de dose. A bula norte-americana recomenda método não oral ou barreira adicional por quatro semanas após o início e por quatro semanas depois de cada escalonamento.

Esse é exatamente o tipo de detalhe que pode passar despercebido quando a conversa fica restrita a “qual caneta emagrece mais?”.

O que eu considero mais importante na prática

Hoje, os dados são mais tranquilizadores do que eram há poucos anos, especialmente para a quantidade de tirzepatida e semaglutida injetável encontrada no leite humano. Mas ainda não temos evidência suficiente para transformar isso em uma recomendação universal.

Não existe uma data mágica do tipo “30 dias depois do parto já pode”. O momento depende da saúde da mãe, da idade e condição do bebê, do padrão de amamentação, da presença de obesidade ou diabetes, da alimentação materna e dos planos para uma nova gestação.

Em uma mulher que não está amamentando, o raciocínio é mais simples: após recuperação do parto e avaliação clínica, pode-se discutir o tratamento da obesidade normalmente. Quando existe amamentação, a decisão precisa ser mais cuidadosa.

Se houver indicação de tratamento medicamentoso, o acompanhamento deve integrar a avaliação médica com atenção à alimentação e ao estado nutricional. Em situações mais complexas, esse cuidado pode ser coordenado dentro de um programa estruturado de tratamento da obesidade, sem transformar o pós-parto em uma corrida para recuperar o “peso de antes”.

Mounjaro e Wegovy durante a amamentação: afinal, pode usar?

Não existe hoje uma resposta única que sirva para todas as mulheres.

Para a tirzepatida, os dados mais recentes mostram passagem para o leite inexistente ou muito baixa nas doses estudadas, e a LactMed admite uso criterioso quando existe necessidade clínica materna. Para a semaglutida injetável, um pequeno estudo também não detectou o medicamento no leite.

Por outro lado, os estudos ainda envolvem poucas mulheres, temos menos informação sobre recém-nascidos e prematuros, e a bula brasileira do Wegovy continua orientando não usar durante a amamentação.

Portanto, a decisão deve ser individual. O mais importante é evitar dois extremos: proibir automaticamente uma terapia potencialmente importante para toda mulher que amamenta, ou tratar dados iniciais como prova definitiva de segurança.

Se a dúvida surgir no seu caso, leve para a consulta informações objetivas: idade do bebê, se o aleitamento é exclusivo ou parcial, quanto tempo pretende continuar amamentando, como está seu peso, sua glicemia, sua pressão, sua alimentação e se pretende engravidar novamente. É a partir desse contexto que uma decisão responsável pode ser tomada.

Para quem não mora em Bom Jesus do Itabapoana, esse tipo de avaliação também pode ser realizado por telemedicina em todo o Brasil, quando clinicamente apropriado.

Referências


Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação individual e não orienta iniciar, suspender ou ajustar medicamentos por conta própria.

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