Semaglutida e tirzepatida mudaram o tratamento da obesidade, mas existe uma realidade importante: nem todas as pessoas emagrecem da mesma forma.
Enquanto algumas perdem 15%, 20% ou até mais do peso corporal, outras apresentam uma resposta bem menor. Uma reportagem publicada hoje, 24 de setembro de 2026, na Nature destacou exatamente esse problema e mostrou como pesquisadores estão tentando entender por que parte dos pacientes responde pouco às terapias baseadas em GLP-1.
Estudos recentes sugerem que a resposta depende de uma combinação de fatores: dose, tempo de tratamento, presença de diabetes, sexo, tolerabilidade, adesão, comportamento alimentar e até diferenças genéticas.
Isso muda uma ideia muito comum: não existe uma quantidade de peso que todo paciente “deveria” perder com a mesma medicação.
Existe realmente quem quase não emagreça com GLP-1?
Sim.
Uma revisão publicada em 2026 avaliou estudos sobre respondedores e não respondedores aos agonistas do receptor de GLP-1 e aos agonistas duplos GLP-1/GIP. Nos ensaios clínicos de obesidade, aproximadamente 10% dos participantes apresentaram uma resposta considerada pequena, geralmente definida como perda inferior a 5% do peso corporal.
Na prática clínica, esse percentual pode ser maior.
Isso acontece porque os ensaios clínicos selecionam pacientes, acompanham as doses de forma rigorosa e oferecem suporte estruturado. Na vida real, custo, interrupções, efeitos adversos, baixa adesão e dificuldade para atingir a dose terapêutica podem reduzir o resultado.
Então o medicamento “não funciona”?
Nem sempre.
Uma resposta menor pode significar várias coisas diferentes.
- o paciente ainda não atingiu a dose adequada;
- o tempo de tratamento foi insuficiente;
- houve interrupções frequentes;
- os efeitos adversos impediram a progressão da dose;
- há diabetes tipo 2 ou outras condições metabólicas associadas;
- o medicamento utilizado pode não ser o mais adequado para aquele paciente;
- a própria biologia individual pode determinar uma resposta menor.
Por isso, avaliar a resposta exige contexto.
Comparar o próprio resultado com alguém que aparece nas redes sociais ou com a média de um ensaio clínico pode gerar expectativas irreais.
A genética pode influenciar quanto uma pessoa emagrece?
Esse é um dos aspectos mais interessantes da pesquisa atual.
Um grande estudo publicado na Nature em 2026 avaliou 27.885 pessoas que utilizaram medicamentos baseados em GLP-1. Os pesquisadores identificaram uma variante no gene GLP1R, que codifica o próprio receptor do GLP-1, associada à eficácia do tratamento.
Cada cópia da variante associada a maior resposta esteve relacionada, em média, a aproximadamente 0,76 kg adicionais de perda de peso.
Também foram encontradas variantes relacionadas à ocorrência de náuseas e vômitos, incluindo alterações em GLP1R e GIPR.
Isso não significa que já seja útil fazer um teste genético antes de prescrever semaglutida ou tirzepatida.
Os próprios autores destacam que a maior parte da variação na resposta ainda é explicada por fatores não genéticos. Esses achados são importantes para a pesquisa, mas ainda não justificam genotipagem de rotina para decidir quem deve ou não usar essas medicações.
Mulheres e homens respondem da mesma forma?
Nem sempre.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Internal Medicine avaliou ensaios clínicos com agonistas de GLP-1 e encontrou uma diferença relevante entre os sexos.
Nos estudos que permitiram essa comparação, a perda de peso média foi maior entre mulheres do que entre homens.
Isso não significa que todas as mulheres responderão melhor, nem que homens respondam mal. O achado mostra apenas que o sexo biológico pode ser um dos fatores que influenciam a resposta média ao tratamento.
Idade, IMC inicial, raça, etnia e hemoglobina glicada inicial não mostraram diferenças consistentes de eficácia na mesma análise.
Diabetes pode reduzir a perda de peso?
Esse é um padrão observado com frequência nos ensaios clínicos.
Pessoas com diabetes tipo 2 tendem, em média, a perder menos peso com terapias incretínicas do que pessoas com obesidade sem diabetes.
Um dos estudos genéticos recentes também encontrou associação entre diabetes tipo 2, doença hepática metabólica e hipertensão com menor resposta média.
Isso não significa que esses pacientes não se beneficiem. Em pessoas com diabetes, o tratamento pode produzir melhora importante da glicemia, redução do risco cardiovascular e outros benefícios metabólicos mesmo quando a perda de peso é menor do que a esperada.
Semaglutida e tirzepatida também não produzem a mesma resposta
Outro fator decisivo é o medicamento utilizado.
Semaglutida atua principalmente no receptor de GLP-1. Tirzepatida atua nos receptores de GLP-1 e GIP.
Em estudos clínicos, a magnitude média de perda de peso não é igual entre essas moléculas, e a dose também influencia diretamente o resultado.
Isso significa que um paciente com resposta insuficiente a determinada estratégia pode precisar de reavaliação do tratamento em vez de simplesmente concluir que “essas canetas não funcionam para mim”.
O tempo de tratamento importa muito
Obesidade é uma doença crônica. O tratamento farmacológico também precisa ser analisado ao longo do tempo.
Uma pessoa que utilizou uma dose inicial por poucas semanas não pode ser comparada a alguém que permaneceu em dose terapêutica durante um ano.
A resposta precoce, no entanto, pode trazer informações úteis.
Revisões recentes mostram que a perda de peso observada nas primeiras semanas ou meses do tratamento é, atualmente, um dos melhores indicadores clínicos disponíveis para estimar a resposta futura.
Isso não significa interromper automaticamente o tratamento quando a balança demora a responder. Significa acompanhar de forma estruturada:
- peso e circunferência abdominal;
- composição corporal;
- fome e saciedade;
- tolerância aos efeitos adversos;
- adesão à medicação;
- dose efetivamente utilizada;
- glicemia e outros marcadores metabólicos;
- atividade física e preservação de massa muscular.
Antes de chamar alguém de “não respondedor”, o que deve ser revisto?
Uma resposta abaixo do esperado exige investigação, não julgamento.
Na prática, eu considero especialmente importante revisar quatro pontos.
1. Dose e regularidade
O paciente conseguiu chegar à dose planejada? Houve interrupções? Está utilizando corretamente?
2. Tempo de tratamento
A avaliação está sendo feita cedo demais ou já houve tempo suficiente para observar um efeito consistente?
3. Fome, saciedade e comportamento alimentar
A medicação realmente modificou a fome? Houve redução de episódios de perda de controle alimentar? Existe alimentação emocional importante?
4. Composição corporal
O peso sozinho não conta toda a história. Redução de gordura, preservação de massa muscular e mudanças na circunferência abdominal também devem ser consideradas.
Mais dose nem sempre é a resposta
Existe uma tendência perigosa de imaginar que, diante de pouca perda de peso, basta aumentar a dose indefinidamente.
Isso não é correto.
O aumento deve respeitar indicação, tolerabilidade, dose aprovada e avaliação clínica. Em alguns pacientes, insistir em uma estratégia pouco eficaz apenas aumenta efeitos adversos e custo sem oferecer benefício proporcional.
O tratamento da obesidade precisa ser individualizado.
O futuro é a medicina de precisão?
Provavelmente caminhamos nessa direção.
Hoje ainda não existe um exame capaz de dizer com segurança: “esta pessoa responderá melhor à semaglutida” ou “esta pessoa responderá melhor à tirzepatida”.
Mas a pesquisa está avançando.
Genética, características metabólicas, comportamento alimentar, microbiota intestinal e padrões neuroendócrinos estão sendo estudados como possíveis ferramentas para escolher o tratamento com maior precisão.
Por enquanto, a estratégia mais confiável continua sendo combinar avaliação clínica individualizada com acompanhamento da resposta real ao tratamento.
O que isso significa para quem está usando Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?
Se o resultado está abaixo do esperado, isso não significa automaticamente que você “falhou” no tratamento.
Também não significa que o caminho correto seja simplesmente aumentar a dose ou trocar de medicamento por conta própria.
A resposta precisa ser analisada dentro do contexto clínico.
O objetivo do tratamento da obesidade não é reproduzir o resultado de outra pessoa. É encontrar uma estratégia eficaz, segura e sustentável para aquele organismo.
Perguntas frequentes
É normal não emagrecer muito com semaglutida?
Existe grande variação individual. Parte dos pacientes apresenta perda de peso menor do que a média observada nos estudos clínicos.
Tirzepatida funciona em quem não respondeu à semaglutida?
Alguns pacientes podem responder de maneira diferente, mas a decisão de trocar o tratamento precisa considerar resposta anterior, dose utilizada, tolerabilidade, doenças associadas e contraindicações.
Existe exame para saber qual medicamento funcionará melhor?
Ainda não existe um teste validado para uso rotineiro capaz de prever com precisão a melhor medicação para cada indivíduo.
Genética determina se vou emagrecer?
Não. Variantes genéticas parecem contribuir para parte da diferença de resposta, mas fatores clínicos e relacionados ao próprio tratamento explicam uma parcela importante da variabilidade.
Quando devo considerar que a resposta está insuficiente?
Essa avaliação deve considerar tempo de uso, dose, regularidade, perda de peso, composição corporal, controle da fome e melhora das doenças associadas. Não existe um único número aplicável a todos.
Conclusão
Semaglutida e tirzepatida são medicamentos muito eficazes, mas não produzem a mesma resposta em todas as pessoas.
A ciência começa a mostrar que parte dessa diferença pode estar relacionada à genética, ao sexo, à presença de diabetes, ao medicamento utilizado, à dose e à resposta inicial ao tratamento.
A mensagem mais importante é simples: tratar obesidade não é perseguir a média de um estudo clínico.
É acompanhar cada paciente, entender sua resposta biológica e ajustar a estratégia de forma individualizada.
Fontes científicas
Nature. GLP-1 drugs fail to help some people lose weight — scientists are on a quest for answers. Publicado em 24 set. 2026. Acessar.
Su et al. Genetic predictors of GLP1 receptor agonist weight loss and side effects. Nature. 2026. Acessar.
Responders Vs. Non-Responders or How to Predict the Response to GLP-1 or GLP-1/GIP Receptor Agonist Therapy. 2026. PubMed.
Alexander GC et al. Heterogeneity of Treatment Effects of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists for Weight Loss in Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Internal Medicine. 2026. PubMed.
Para saber mais, veja também minhas páginas sobre tratamento da obesidade, Programa EmagreSER e consulta online.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

