A menopausa é uma fase natural da vida, mas isso não significa que a mulher precise conviver em silêncio com ondas de calor, insônia, secura vaginal, queda de libido, irritabilidade ou piora importante da qualidade de vida.
A terapia hormonal da menopausa (THM) continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores — como fogachos e suores noturnos — e também pode ajudar na síndrome geniturinária da menopausa e na proteção óssea. Quando bem indicada, com avaliação individualizada, pode trazer grande melhora de qualidade de vida.
O ponto central é simples: nem toda mulher precisa de hormônios, mas muitas mulheres que têm indicação podem se beneficiar bastante.
O que as mulheres podem sentir na menopausa?
A queda e a oscilação dos hormônios ovarianos podem causar sintomas muito diferentes entre uma mulher e outra. Os mais comuns incluem:
- ondas de calor e suores noturnos;
- insônia ou sono fragmentado;
- irritabilidade, ansiedade e oscilação de humor;
- queda de energia;
- dificuldade de concentração e sensação de “névoa mental”;
- secura vaginal;
- dor ou desconforto durante a relação sexual;
- redução do desejo sexual;
- sintomas urinários, como urgência ou infecções recorrentes em algumas mulheres;
- mudança da composição corporal, com maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal;
- perda progressiva de massa óssea.
Nem todo sintoma depois dos 40 é causado pela menopausa. Alterações de tireoide, anemia, depressão, apneia do sono, medicamentos, deficiência de ferro, problemas de relacionamento e outras condições também podem causar sintomas semelhantes. Por isso, o primeiro passo é uma avaliação clínica bem feita. Veja também o conteúdo sobre hormônios após os 40 e quando investigar alterações.
Quando a terapia hormonal é indicada?
As principais indicações são:
- sintomas vasomotores moderados ou intensos, como fogachos e suores noturnos;
- síndrome geniturinária da menopausa, com secura, ardor, dor durante a relação ou sintomas urinários;
- prevenção de perda óssea em mulheres selecionadas;
- menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura, quando não houver contraindicação.
Diretrizes brasileiras e internacionais são particularmente favoráveis ao início da THM em mulheres sintomáticas, sem contraindicações, que estão antes dos 60 anos ou nos primeiros 10 anos após o início da menopausa. Essa é a chamada “janela de oportunidade”.
Já iniciar terapia hormonal muitos anos depois da menopausa exige uma avaliação muito mais cuidadosa, porque o balanço entre benefícios e riscos muda com a idade e com a presença de doenças cardiovasculares.
Quais hormônios podem ser usados?
1. Estrogênio
É o principal hormônio responsável pela melhora dos fogachos, suores noturnos, secura vaginal e perda óssea.
Pode ser usado por via:
- oral;
- transdérmica, por adesivo ou gel;
- vaginal, quando o objetivo principal é tratar sintomas locais.
2. Progesterona ou outro progestagênio
Se a mulher tem útero e usa estrogênio sistêmico, é necessário proteger o endométrio com progesterona ou outro progestagênio. Usar estrogênio sistêmico sozinho em uma mulher com útero aumenta o risco de hiperplasia e câncer de endométrio.
Quando a mulher já fez histerectomia total, em geral pode usar estrogênio sem progesterona.
3. Testosterona
Testosterona não faz parte da terapia hormonal de rotina para todas as mulheres na menopausa.
Ela pode ser considerada em casos selecionados de transtorno do desejo sexual hipoativo, depois que outras causas de queda da libido forem avaliadas. Não há respaldo científico para usar testosterona com a finalidade de emagrecer, aumentar massa muscular, melhorar desempenho, “rejuvenescer” ou aumentar energia de forma inespecífica.
Implantes hormonais manipulados e os chamados “chips da beleza” também não são recomendados pelas principais sociedades médicas por falta de evidência adequada de segurança e eficácia.
Como escolher entre comprimido, gel, adesivo ou tratamento vaginal?
| Situação | Opção frequentemente considerada |
|---|---|
| Fogachos, suor noturno e sintomas sistêmicos | Estrogênio sistêmico oral ou transdérmico |
| Mulher com útero | Estrogênio + proteção endometrial com progesterona/progestagênio |
| Mulher sem útero | Estrogênio isolado, na maioria dos casos |
| Secura vaginal ou dor na relação sem sintomas sistêmicos importantes | Estrogênio vaginal em baixa dose pode ser suficiente |
| Obesidade, diabetes, dislipidemia, síndrome metabólica ou maior risco trombótico | A via transdérmica costuma ser preferida |
| Baixo desejo sexual persistente após avaliação adequada | Testosterona pode ser discutida em casos selecionados |
A escolha não deve ser feita apenas pela preferência da paciente ou pelo “hormônio da moda”. Ela depende de sintomas, presença ou ausência do útero, idade, tempo de menopausa, peso, risco cardiovascular, risco de trombose, histórico oncológico, fígado, enxaqueca, pressão arterial e outros fatores.
O que a terapia hormonal costuma melhorar?
Os benefícios mais bem estabelecidos são:
- redução importante dos fogachos e suores noturnos;
- melhora do sono, principalmente quando ele era interrompido pelos sintomas vasomotores;
- melhora da secura vaginal e da dor nas relações;
- melhora de sintomas urinários relacionados à síndrome geniturinária;
- prevenção da perda de massa óssea e redução do risco de fraturas durante o uso;
- melhora de qualidade de vida em mulheres sintomáticas.
Algumas mulheres também relatam melhora de humor, energia e funcionamento sexual, mas esses sintomas são multifatoriais e nem sempre desaparecem apenas com hormônios. Para entender melhor essa relação, veja também o artigo sobre sexualidade, saúde e qualidade de vida.
Terapia hormonal ajuda a emagrecer?
Não é tratamento para emagrecimento.
A terapia hormonal pode influenciar a distribuição de gordura corporal e, ao melhorar fogachos e sono, facilitar a rotina de atividade física e controle do peso. Mas ela não substitui tratamento da obesidade, alimentação adequada ou exercício.
Se o principal problema for ganho de peso ou aumento de gordura abdominal, é importante avaliar composição corporal, resistência à insulina, sono, atividade física e outras causas. Veja também o artigo sobre gordura visceral e risco metabólico.
Quem precisa de cuidado especial ou pode não poder usar terapia hormonal sistêmica?
A terapia hormonal sistêmica costuma ser evitada ou exige avaliação especializada em situações como:
- câncer de mama ou outro tumor hormônio-dependente;
- sangramento vaginal sem diagnóstico;
- história de infarto ou acidente vascular cerebral;
- doença cardiovascular estabelecida;
- trombose venosa ou embolia pulmonar, especialmente sem causa reversível;
- doença hepática importante.
Essas situações não devem ser tratadas com regras simplistas. Em algumas mulheres, especialmente quando o problema é apenas vaginal, opções locais podem continuar sendo discutidas em conjunto com especialistas.
Hormônio transdérmico é mais seguro?
Em relação a trombose venosa, a via transdérmica apresenta vantagens importantes porque evita parte do metabolismo hepático de primeira passagem.
Diretrizes brasileiras de 2024 recomendam preferir estrogênio transdérmico em mulheres com obesidade, diabetes, dislipidemia ou síndrome metabólica, além de outras situações de maior risco tromboembólico.
Isso não significa que comprimidos sejam “ruins”. Significa que a via precisa ser escolhida de acordo com o perfil de risco.
E o risco de câncer de mama?
Esse é um dos assuntos que mais geram medo.
O risco depende do tipo de terapia, duração, idade, histórico individual e esquema utilizado. Terapia combinada com estrogênio e progestagênio pode estar associada a pequeno aumento do risco de câncer de mama com uso prolongado. O perfil de risco do estrogênio isolado em mulheres histerectomizadas é diferente.
Por isso, não faz sentido dizer simplesmente que “hormônio causa câncer” ou, no extremo oposto, que “hormônio é totalmente seguro”. O correto é avaliar o risco individual e acompanhar a paciente.
Precisa dosar hormônios para começar?
Na maioria das mulheres acima de 45 anos com quadro típico de perimenopausa ou menopausa, o diagnóstico é principalmente clínico. Dosagens repetidas de FSH, estradiol ou saliva geralmente não são necessárias para decidir o tratamento.
Exames podem ser úteis em situações específicas, especialmente quando há dúvida diagnóstica, sintomas muito precoces ou suspeita de insuficiência ovariana prematura.
Existe idade para parar a terapia hormonal?
Não existe uma regra universal de “parar obrigatoriamente aos 60” ou depois de determinado número de anos.
A necessidade de continuar deve ser reavaliada periodicamente. Algumas mulheres permanecem sintomáticas por muitos anos e podem continuar tratamento após discussão individual de benefícios e riscos.
Terapia hormonal é anticoncepcional?
Não. Durante a perimenopausa ainda pode existir ovulação. Uma mulher que ainda tem risco de gravidez pode precisar de método contraceptivo específico, mesmo que esteja utilizando terapia hormonal.
Um roteiro prático para uma consulta sobre menopausa
- Liste quais sintomas realmente estão prejudicando sua vida.
- Informe quando foi sua última menstruação e como os ciclos mudaram.
- Leve seu histórico de trombose, câncer, doenças cardiovasculares e cirurgias.
- Revise medicamentos e suplementos em uso.
- Converse sobre sono, sexualidade, saúde óssea, peso e atividade física.
- Pergunte qual via hormonal faz mais sentido para o seu perfil.
- Entenda quais benefícios são esperados e quais sinais precisam de reavaliação.
Em resumo
A terapia hormonal da menopausa é uma das ferramentas mais eficazes da medicina para mulheres com sintomas importantes e sem contraindicações.
Ela pode melhorar fogachos, suor noturno, sono, secura vaginal, dor nas relações e proteger a massa óssea. Mas precisa ser individualizada: o hormônio, a via, a dose e a necessidade de progesterona variam de mulher para mulher.
O objetivo não é “rejuvenescer” nem transformar a menopausa em doença. É tratar sintomas reais, preservar saúde e devolver qualidade de vida quando existe indicação.
Referências
- The Menopause Society — 2022 Hormone Therapy Position Statement
- NICE Guideline — Menopause: identification and management, atualizada em 2024
- Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa — 2024
- FEBRASGO e SBEM — Nota conjunta sobre terapia hormonal, 2025
- ACOG — Hormone Therapy for Menopause
- ACOG — Compounded Bioidentical Menopausal Hormone Therapy
- FEBRASGO — Prescrição de androgênios para mulheres
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

