“Mounjaro emagrece todo mundo?” Essa é uma das perguntas que mais aparecem no consultório e nas redes sociais desde que a tirzepatida ganhou espaço no tratamento da obesidade.
A resposta curta é: não.
Os estudos mostram que a tirzepatida pode produzir uma redução de peso muito expressiva em muitas pessoas. Mas isso não significa que todos terão o mesmo resultado, nem que exista uma dose capaz de garantir determinada quantidade de quilos perdidos.
Entender essa diferença entre resultado médio de um estudo e resultado individual é essencial para usar o medicamento de forma realista e segura.
O que é o Mounjaro?
Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida. Ela atua em receptores de dois hormônios envolvidos no controle da glicose, da saciedade e da ingestão alimentar: GIP e GLP-1.
Na prática, isso pode ajudar a reduzir a fome, aumentar a saciedade e diminuir a quantidade de alimento ingerida. No Brasil, a Anvisa aprovou em 2025 a tirzepatida para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou em pessoas com sobrepeso associado a determinadas condições relacionadas ao peso, sempre em conjunto com mudanças de estilo de vida.
Quanto peso as pessoas perderam nos estudos?
Um dos principais estudos sobre tirzepatida para obesidade foi o SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine. Participaram 2.539 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma complicação relacionada ao peso, sem diabetes.
Após 72 semanas, a redução média do peso corporal foi aproximadamente:
- 15% com 5 mg por semana;
- 19,5% com 10 mg por semana;
- 20,9% com 15 mg por semana;
- cerca de 3,1% no grupo placebo.
São resultados muito relevantes. Mas existe um detalhe fundamental: essas são médias.
Então por que o Mounjaro não emagrece todo mundo da mesma forma?
No mesmo estudo, entre 85% e 91% das pessoas que receberam tirzepatida perderam pelo menos 5% do peso inicial, dependendo da dose. Isso também significa que uma parcela dos participantes não atingiu sequer essa perda de 5%.
Além disso, dentro do grupo que responde ao tratamento existe grande variação. Algumas pessoas perdem muito mais peso do que a média; outras, menos.
Isso acontece porque obesidade não é uma doença igual em todas as pessoas. Genética, grau de obesidade, alimentação, sono, atividade física, medicamentos em uso, diabetes, resistência à insulina, saúde mental, comportamento alimentar e tolerabilidade ao tratamento podem influenciar a resposta.
Por isso, comparar sua perda de peso com a de outra pessoa que usa a mesma medicação geralmente não faz sentido.
A maior dose sempre significa mais emagrecimento?
Não necessariamente para um indivíduo específico.
Nos estudos, doses maiores produziram maior perda média de peso. Mas o objetivo do tratamento não é simplesmente chegar à dose máxima. A dose deve ser ajustada progressivamente levando em consideração resposta clínica, efeitos adversos e tolerância.
Existem pacientes que respondem muito bem a doses menores e outros que precisam de doses maiores. Também existem pessoas que apresentam efeitos colaterais que impedem uma progressão rápida.
Dose mais alta não é sinônimo automático de tratamento melhor.
O que acontece quando a pessoa para?
Esse é outro ponto importante e pouco compreendido.
No estudo SURMOUNT-4, os participantes perderam em média 20,9% do peso durante uma primeira fase de tratamento com tirzepatida. Depois, parte continuou usando a medicação e parte foi trocada para placebo.
Ao longo do período seguinte, quem interrompeu a tirzepatida apresentou recuperação importante do peso perdido, enquanto quem manteve o tratamento continuou apresentando melhor manutenção e, em média, perda adicional de peso.
Isso reforça um conceito fundamental: obesidade é uma doença crônica. O tratamento precisa incluir uma estratégia de longo prazo, e não apenas a ideia de “usar a caneta até atingir determinado peso”.
Além do peso, há outros benefícios?
Sim. Os estudos mostraram melhora de vários marcadores cardiometabólicos. Em pessoas com obesidade e pré-diabetes acompanhadas por três anos no programa SURMOUNT-1, o tratamento com tirzepatida esteve associado a perda de peso sustentada e a uma redução importante da progressão para diabetes tipo 2.
Isso é relevante porque o objetivo do tratamento da obesidade não deve ser apenas reduzir o número da balança. É reduzir risco de doenças, melhorar saúde metabólica, mobilidade, sono, qualidade de vida e capacidade funcional.
E a perda de massa muscular?
Quando uma pessoa perde bastante peso, alguma redução de massa magra pode ocorrer. Em uma subanálise do SURMOUNT-1 com avaliação por DXA, aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu a gordura e cerca de 25% a massa magra.
Por isso, durante o tratamento, não basta simplesmente “comer menos”. Proteína adequada, treinamento de força, atividade física e avaliação da composição corporal são importantes para preservar função e massa muscular.
Expliquei esse tema em mais detalhes no artigo Semaglutida, tirzepatida e perda muscular.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns?
Nos estudos, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, especialmente náusea, diarreia, constipação e vômitos. Em geral, ocorreram com maior frequência durante o aumento das doses e foram leves ou moderados na maioria dos participantes.
Isso não significa que devam ser ignorados. Sintomas persistentes, intensos ou que dificultem alimentação e hidratação precisam ser avaliados.
A tirzepatida também não é adequada para qualquer pessoa. O médico precisa avaliar histórico clínico, outros medicamentos, doenças associadas e possíveis contraindicações antes e durante o tratamento.
Como saber se o tratamento está funcionando para você?
O acompanhamento deve ir além da pergunta “quantos quilos perdi?”. Alguns pontos importantes são:
- evolução do peso e da circunferência abdominal;
- composição corporal;
- controle da fome e da saciedade;
- qualidade da alimentação;
- manutenção de massa muscular e força;
- atividade física;
- sono;
- pressão arterial, glicemia e outros marcadores metabólicos;
- efeitos adversos e tolerabilidade.
Checklist prático antes de pensar em aumentar a dose
- A fome realmente voltou ou você está apenas comparando seu resultado com o de outra pessoa?
- A alimentação continua adequada, com proteína e fibras suficientes?
- Você está fazendo treinamento de força regularmente?
- O sono está adequado ou piorou nas últimas semanas?
- Existem efeitos colaterais que ainda não foram bem controlados?
- A perda de peso desacelerou por poucos dias ou existe um platô sustentado?
Essas perguntas ajudam a mostrar por que a decisão de ajustar dose não deve ser baseada apenas na balança.
O registro brasileiro do medicamento orienta que, para controle do peso, se a pessoa não perder pelo menos 5% do peso inicial após 6 meses da titulação até a maior dose tolerada, é necessário reavaliar individualmente o benefício de continuar o tratamento.
Três situações diferentes que exigem condutas diferentes
| Situação | O que precisa ser avaliado |
|---|---|
| Perde peso, mas sente muita náusea e quase não consegue comer | Tolerabilidade, hidratação, qualidade da alimentação e necessidade de ajuste da estratégia. |
| Perde peso, mas também perde força e massa muscular | Proteína, treinamento de força, composição corporal e ritmo da perda de peso. |
| Perde pouco peso apesar do tratamento | Adesão, dose tolerada, alimentação, sono, atividade física, medicamentos associados e outras causas clínicas. |
O que realmente faz diferença no resultado?
Mounjaro não deve ser visto como uma solução isolada. A medicação pode ser uma ferramenta muito potente, mas o resultado depende de um tratamento estruturado.
Um bom acompanhamento precisa trabalhar simultaneamente:
- alimentação;
- atividade física e treinamento de força;
- sono;
- comportamento alimentar;
- saúde emocional;
- composição corporal;
- doenças metabólicas associadas;
- estratégia de manutenção do peso.
É justamente essa visão mais ampla que utilizamos no acompanhamento da obesidade e do emagrecimento.
Se você está pensando em usar Mounjaro, o que fazer agora?
- Não escolha a medicação apenas pelo resultado de outra pessoa. A indicação depende do seu histórico, IMC, doenças associadas, medicamentos em uso e objetivos clínicos.
- Faça uma avaliação antes de iniciar. É importante revisar riscos, contraindicações, exames quando indicados e possíveis interações.
- Planeje alimentação, atividade física e proteção de massa muscular desde o início. O medicamento não substitui esses pilares.
- Monitore resposta e efeitos adversos. A decisão de manter, ajustar ou interromper o tratamento deve considerar benefício, tolerabilidade e evolução clínica.
- Pense em manutenção desde o começo. Obesidade é uma doença crônica; o objetivo não é apenas perder peso, mas sustentar a melhora de saúde ao longo do tempo.
Esse raciocínio ajuda a evitar dois erros comuns: buscar a maior dose rapidamente e interpretar qualquer desaceleração na balança como “falha do medicamento”.
Em resumo: Mounjaro emagrece todo mundo?
Não. Mas a tirzepatida é hoje uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para o tratamento da obesidade em pessoas adequadamente selecionadas.
Os estudos mostram perdas médias de peso importantes, mas também mostram algo igualmente importante: pessoas respondem de formas diferentes. Além disso, interromper o tratamento pode favorecer reganho de peso, reforçando que a obesidade precisa ser tratada como uma doença crônica.
A pergunta mais útil, portanto, não é “quantos quilos o Mounjaro faz perder?”.
A pergunta correta é: qual é a melhor estratégia de tratamento para esta pessoa, e como transformar a perda de peso em melhora real de saúde que possa ser mantida ao longo do tempo?
Referências
- Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine.
- Aronne LJ et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity. JAMA.
- Tirzepatide for Obesity Treatment and Diabetes Prevention. New England Journal of Medicine.
- Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in SURMOUNT-1.
- Anvisa — Mounjaro (tirzepatida): nova indicação para controle crônico do peso.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876









