Mounjaro e perda de massa magra: quando emagrecer muito pode significar emagrecer pior

Quando alguém me diz que perdeu 10, 15 ou 20 quilos com Mounjaro, eu não paro no número da balança. A próxima pergunta é mais importante: o que foi perdido?

Porque existe uma diferença enorme entre perder 15 quilos predominantemente de gordura e perder os mesmos 15 quilos com uma redução importante de massa magra, queda de força, piora do desempenho físico e dificuldade para manter uma alimentação adequada.

A tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — é uma das ferramentas mais eficazes que temos hoje para o tratamento da obesidade. Mas eficácia para baixar o peso não significa que a qualidade do emagrecimento deva ser ignorada.

E é justamente aqui que muita gente se engana: comemora cada quilo perdido, aumenta a dose, come cada vez menos e só percebe meses depois que também ficou mais fraca, cansada e com menos capacidade de treinar.

Emagrecer bem não é apenas pesar menos. É perder gordura preservando, tanto quanto possível, músculo, força e função.

Mounjaro faz perder músculo?

A resposta correta é mais cuidadosa do que um simples “sim” ou “não”.

Em qualquer perda de peso importante, seja com dieta, cirurgia bariátrica ou medicamentos, parte do peso perdido pode vir da chamada massa livre de gordura. Isso não significa que o tratamento esteja “destruindo músculo”.

No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, 160 participantes realizaram DXA no início e após 72 semanas. Nos pacientes tratados com tirzepatida, o peso corporal caiu em média 21,3%, a massa de gordura caiu 33,9% e a massa magra caiu 10,9%. Aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu à gordura e 25% à massa magra.

Esse dado é importante, mas precisa ser interpretado corretamente. Uma meta-análise publicada em 2026 comparou terapias incretínicas com intervenções intensivas de estilo de vida e encontrou proporção de perda de massa magra bastante semelhante: cerca de 25% do peso perdido com tirzepatida e 26% nas intervenções de estilo de vida. Quando o tratamento incluía treinamento resistido, essa proporção caiu para aproximadamente 17,5%.

Ou seja: não há evidência de que o Mounjaro seja, por si só, um medicamento que “consome músculos”. O problema é que uma perda de peso grande e rápida, associada a baixo estímulo muscular e alimentação inadequada, pode criar um cenário em que a perda de tecido magro se torne clinicamente relevante.

Massa magra não é a mesma coisa que músculo

Esse detalhe costuma desaparecer das discussões nas redes sociais.

Quando um exame como a DXA mostra redução de “massa magra”, ele não está medindo apenas músculo esquelético. Massa magra inclui água, glicogênio, órgãos, tecidos conjuntivos e outros componentes livres de gordura.

Portanto, dizer que “25% do peso perdido com Mounjaro é músculo” é incorreto.

Ao mesmo tempo, também seria um erro usar essa diferença para ignorar o problema. Se a pessoa está perdendo peso e, junto, apresenta queda de força, redução do desempenho no treino, dificuldade para levantar cargas que antes eram habituais ou perda progressiva de funcionalidade, isso merece atenção independentemente do número mostrado pela bioimpedância.

Na prática, a função muscular importa tanto quanto a quantidade de massa magra.

O cenário que mais me preocupa não é o medicamento. É o tratamento incompleto.

A tirzepatida reduz a fome e pode diminuir de forma importante a quantidade de comida ingerida. Para muitos pacientes, isso é parte essencial do efeito terapêutico.

Mas existe uma armadilha: se a pessoa passa a comer muito pouco, não atinge uma ingestão proteica adequada, abandona o treinamento de força e comemora apenas a queda rápida da balança, o tratamento pode ficar desequilibrado.

A medicação reduz o apetite. Ela não substitui o estímulo mecânico que o músculo recebe durante o treinamento resistido e não garante, sozinha, que a alimentação tenha qualidade nutricional suficiente.

Por isso, uma orientação conjunta publicada em 2025 por sociedades de nutrição, obesidade e medicina do estilo de vida recomenda que pessoas em uso de terapias baseadas em GLP-1 sejam avaliadas também quanto a alimentação, força, função muscular, composição corporal, atividade física e treinamento resistido.

Por que perder músculo demais pode cobrar uma conta depois?

1. A força pode cair antes de a pessoa perceber que perdeu músculo

Músculo não serve apenas para “dar forma” ao corpo. Ele é fundamental para caminhar, subir escadas, levantar-se de uma cadeira, carregar peso, treinar, trabalhar e envelhecer com independência.

Quando há redução importante de massa e principalmente de força muscular, atividades que antes eram simples podem começar a exigir mais esforço.

Em pessoas mais velhas, frágeis ou com pouca massa muscular inicial, isso se torna ainda mais relevante. Consensos internacionais sobre sarcopenia destacam que baixa força muscular é um dos principais sinais clínicos de comprometimento muscular e se associa a pior qualidade de vida, maior risco de quedas e outras complicações.

2. O metabolismo não “quebra”, mas o gasto energético muda

É comum ouvir que perder músculo “destrói o metabolismo”. Essa frase exagera o que realmente acontece.

A massa livre de gordura é um dos principais determinantes do gasto energético de repouso. Quando alguém perde peso, é esperado que o organismo passe a gastar menos energia — simplesmente porque existe menos corpo para manter. Além disso, pode ocorrer adaptação metabólica, em que o gasto energético diminui um pouco além do esperado pela mudança de peso e composição corporal.

Perder tecido metabolicamente ativo pode contribuir para essa redução, mas não existe um ponto em que o metabolismo fique irreversivelmente “estragado”.

Preservar músculo é importante porque ajuda a sustentar força, capacidade de exercício, movimento diário e parte do gasto energético. Mas não deve ser vendido como uma fórmula mágica para manter o metabolismo “acelerado”.

3. Pode ficar mais difícil sustentar uma rotina fisicamente ativa

Aqui existe uma consequência prática que às vezes recebe pouca atenção.

Uma pessoa com menos força tende a treinar pior, se movimentar menos e ter mais dificuldade para manter atividades que ajudam a sustentar a saúde metabólica e a composição corporal.

Então o impacto da perda muscular não ocorre apenas pelo gasto energético em repouso. Ele pode aparecer também no que chamamos de gasto energético da atividade física e, principalmente, na capacidade de continuar se exercitando com qualidade ao longo dos anos.

4. A manutenção do peso fica mais complexa — mas não pela razão simplista que costuma circular nas redes

É tentador afirmar que “quem perde músculo vai engordar tudo de novo”. A ciência não permite fazer essa afirmação dessa forma.

O estudo SURMOUNT-4 mostrou que, quando a tirzepatida foi retirada, muitos participantes recuperaram uma parte importante do peso perdido. Esse fenômeno reforça o caráter crônico da obesidade e a tendência biológica ao reganho quando o tratamento é interrompido.

Esse reganho não pode ser atribuído simplesmente à perda de massa muscular.

Entretanto, chegar à fase de manutenção com boa força, capacidade física, alimentação estruturada e rotina de exercício fornece uma base muito mais favorável para o tratamento de longo prazo do que chegar mais leve, porém sedentário, fraco e dependente apenas do efeito farmacológico sobre o apetite.

É por isso que eu costumo separar duas perguntas: “quanto peso foi perdido?” e “em que condição esse corpo chegou ao novo peso?”

Imagine duas pessoas que perderam 15 quilos

As duas começaram o tratamento com o mesmo peso e terminaram com o mesmo número na balança.

A primeira manteve treinamento de força, conseguiu sustentar uma alimentação nutricionalmente adequada, preservou boa parte da força e perdeu predominantemente gordura.

A segunda praticamente parou de comer porque “não sentia fome”, não treinou, apresentou queda de força e perdeu uma quantidade importante de tecido magro.

A balança poderia dizer que as duas tiveram exatamente o mesmo resultado.

Clinicamente, elas não tiveram.

Esse é um dos motivos pelos quais, no tratamento da obesidade, eu considero composição corporal, força e função tão importantes quanto o peso.

Quem merece atenção especial durante o uso de tirzepatida?

A preservação muscular deve ser observada em todos, mas alguns grupos merecem vigilância ainda maior:

  • pessoas com baixa massa muscular antes de iniciar o tratamento;
  • adultos mais velhos;
  • mulheres na perimenopausa e menopausa, especialmente quando já existe perda de força ou sedentarismo;
  • pessoas que não fazem treinamento de força;
  • quem apresenta redução muito intensa da ingestão alimentar;
  • pacientes com náuseas, vômitos ou intolerância alimentar persistentes;
  • quem utiliza dietas excessivamente restritivas junto com a medicação;
  • pessoas que apresentam perda rápida de peso acompanhada de fraqueza ou piora do desempenho físico.

Nesses casos, observar apenas o peso pode dar uma falsa sensação de que tudo está evoluindo perfeitamente.

O que realmente ajuda a preservar massa muscular com Mounjaro?

Treinamento de força

É provavelmente a intervenção mais importante para dizer ao organismo: “esse músculo continua sendo necessário”.

Uma meta-análise de 2026 que comparou diferentes estratégias encontrou a menor proporção de perda de massa magra justamente quando o emagrecimento foi acompanhado de treinamento resistido.

Isso não significa que todo paciente precise começar levantando grandes cargas. O treinamento precisa ser adaptado à idade, condição física, limitações articulares, histórico esportivo e capacidade funcional.

Proteína suficiente — sem transformar proteína em religião

A redução do apetite pode fazer algumas pessoas passarem o dia ingerindo muito menos proteína do que imaginam.

Diretrizes e consensos recentes discutem metas mais altas de proteína durante perda de peso, frequentemente na faixa de 1,2 a 1,6 g/kg/dia. Mas esse número não deve ser aplicado mecanicamente ao peso atual de toda pessoa com obesidade. Dependendo do caso, peso ajustado, massa livre de gordura, função renal, idade, atividade física e ingestão energética precisam ser considerados.

Por isso, a estratégia alimentar deve ser individualizada e, quando necessário, construída em conjunto com nutricionista.

Mais proteína também não resolve tudo sozinha. Proteína sem estímulo muscular não substitui treinamento de força.

Evitar transformar falta de fome em jejum involuntário permanente

Uma frase que escuto com frequência é: “Doutor, eu quase não consigo comer e estou adorando porque o peso está despencando”.

Esse é exatamente o momento em que vale ter cuidado.

Reduzir o excesso de ingestão é parte do tratamento. Passar a consumir uma quantidade tão pequena de alimentos que proteína, vitaminas, minerais e energia se tornam insuficientes é outra situação.

Nem sempre “quanto menos eu comer, melhor” é uma boa estratégia.

Acompanhar força e função, não apenas bioimpedância

Bioimpedância pode ser útil para observar tendências, mas varia com hidratação e outras condições. DXA é mais precisa para composição corporal, mas também não mede força e não precisa ser feita rotineiramente em todo paciente.

Na prática, algumas perguntas simples podem revelar bastante:

  • a carga utilizada nos exercícios está sendo mantida ou despencou?
  • a pessoa consegue executar os mesmos movimentos do início do tratamento?
  • houve piora de força de preensão ou do teste de levantar da cadeira?
  • a disposição para se movimentar melhorou ou piorou?
  • a redução da massa magra está proporcional à magnitude do emagrecimento?

O exame de composição corporal deve conversar com a função. Um número isolado raramente conta toda a história.

Então devo ter medo de usar Mounjaro por causa da perda muscular?

Não.

Essa seria uma conclusão equivocada e poderia afastar pacientes de um tratamento eficaz para uma doença crônica.

A tirzepatida produz perda predominante de gordura e melhora diversos marcadores metabólicos. O que os estudos mais recentes estão nos ensinando é que o tratamento moderno da obesidade precisa evoluir de uma obsessão pelo peso para uma preocupação com a qualidade do peso perdido.

A pergunta não deveria ser apenas “quanto emagreci?”.

Deveria incluir também:

“Quanto de gordura eu perdi? Como está minha força? Estou mantendo músculo? Consigo treinar? Minha alimentação continua adequada? E o que estamos construindo para manter esse resultado?”

Na página sobre tratamento da obesidade e emagrecimento, explico por que a medicação é apenas uma das partes do cuidado. Para quem deseja entender melhor o papel do treinamento, hormônios e nutrição, há também o artigo sobre ganho e preservação de massa magra.

Conclusão

Mounjaro pode fazer parte de um excelente tratamento para obesidade. Mas um bom tratamento não termina na caneta e não pode ser avaliado apenas pela balança.

Durante uma perda de peso importante, alguma redução de massa magra pode ocorrer e isso não significa, automaticamente, sarcopenia ou dano muscular provocado pelo medicamento.

O problema aparece quando o emagrecimento vem acompanhado de alimentação insuficiente, ausência de treinamento de força, queda de capacidade funcional e perda muscular que poderia ter sido minimizada.

Eu não considero um emagrecimento realmente bem-sucedido aquele que entrega apenas um corpo mais leve. O objetivo é chegar a um peso melhor com um corpo metabolicamente mais saudável, forte e funcional — e com condições de sustentar esse resultado no longo prazo.

Referências científicas

Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

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