Uma mulher de 48 anos pode passar o dia inteiro tentando trabalhar depois de acordar três vezes à noite encharcada de suor. Ela se sente cansada, irritada e começa a se perguntar: “É a menopausa ou há algo errado comigo?” Em vez de tratar calor, sono e humor como assuntos separados — ou dizer que “é normal, aguente” — precisamos entender o que está acontecendo e quais opções realmente ajudam.
Em 15 de outubro de 2026, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) anunciou uma nova diretriz sobre sintomas vasomotores (fogachos e suores noturnos), alterações de sono e de humor na perimenopausa e na menopausa. O documento aparece na edição de novembro de 2026 da revista científica, mas foi divulgado on-line em outubro. Ele substitui uma orientação de 2014 e amplia a discussão para tratamentos hormonais, medicamentos não hormonais e abordagens sem medicamentos.
Para quem está vivendo esses sintomas, a mensagem principal é: menopausa é uma fase natural, mas sofrimento importante não precisa ser ignorado. A melhor escolha depende do sintoma predominante, do histórico de saúde e da preferência de cada pessoa.
Fogacho, sono ruim e humor: qual é a relação?
Fogacho é uma onda súbita de calor, às vezes acompanhada de rubor, palpitações e suor. Quando acontece à noite, pode interromper o sono repetidas vezes. No dia seguinte, a falta de descanso pode prejudicar concentração, disposição e tolerância ao estresse. Isso ajuda a entender por que uma mulher pode chegar à consulta dizendo apenas “estou exausta e sem paciência”, quando o problema começou com suores noturnos.
Mas não se deve atribuir automaticamente toda insônia, ansiedade ou tristeza aos hormônios. Apneia do sono — pausas na respiração durante a noite —, depressão, problemas de tireoide, medicamentos, álcool, dor e situações de vida também podem participar. A avaliação precisa ouvir a história inteira, sobretudo quando o sintoma é intenso, persistente ou não acompanha os fogachos.
O que a diretriz traz para a terapia hormonal?
A terapia hormonal da menopausa, chamada THM, continua sendo uma ferramenta importante para fogachos e suores noturnos incômodos. Pode melhorar o sono quando ele é interrompido por essas ondas de calor. Se a mulher tem útero e usa estrogênio que age no corpo todo, normalmente precisa também de um progestagênio — hormônio que protege a camada interna do útero. Sem útero, em geral pode-se usar estrogênio isolado, conforme a avaliação clínica.
A ACOG reforça que a decisão não deve ser uma receita automática nem uma proibição genérica. Quando a THM é escolhida e não há contraindicações, a diretriz favorece iniciá-la antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após o início da menopausa natural. Essa referência de tempo não significa que toda mulher nessa faixa precise de hormônio, nem que completar 60 anos obrigue quem já usa a interromper. Em situações fora dessa janela, iniciar tratamento exige avaliação especialmente cuidadosa.
É necessário discutir benefícios e riscos conforme idade, sintomas, presença de útero, história de câncer de mama, doença cardiovascular e tromboembolismo — formação de coágulos que podem atingir pernas ou pulmões. A forma de usar, a dose, o acompanhamento e a decisão de continuar ou parar são individuais. Se você deseja aprofundar esse tema, veja também nosso artigo sobre quando a terapia hormonal ajuda e como é escolhida com segurança.
Se eu não puder ou não quiser usar hormônios, há tratamento?
Sim. A nova orientação também aborda medicamentos não hormonais. Entre eles estão alguns antidepressivos das classes ISRS e IRSN — remédios que atuam em mensageiros químicos do cérebro e, em determinadas doses e situações, podem reduzir fogachos; alguns também tratam depressão. Usá-los para sintomas da menopausa não significa presumir que os fogachos são “psicológicos”. A escolha depende de outros medicamentos, efeitos adversos e condições clínicas.
Outra classe citada é a dos antagonistas dos receptores de neurocinina, como fezolinetanto e elinzanetanto. Em termos simples, eles atuam em circuitos cerebrais envolvidos no controle da temperatura. São opções não hormonais discutidas na diretriz norte-americana. Isso não equivale a afirmar que ambos estejam disponíveis ou aprovados no Brasil; registro, acesso, contraindicações e necessidade de acompanhamento devem ser verificados antes de qualquer prescrição. Alguns tratamentos dessa classe exigem atenção à função do fígado.
Não há um medicamento “melhor para todas”. Uma mulher com fogachos intensos e outra cujo maior problema é depressão persistente podem precisar de planos diferentes.
E as estratégias sem medicamentos?
A ACOG também considera abordagens como terapia cognitivo-comportamental — acompanhamento psicológico que ensina a reconhecer padrões de pensamento e comportamento e a lidar melhor com sintomas —, práticas de atenção plena, exercício físico, hipnose clínica e acupuntura. O benefício esperado varia conforme o sintoma e a qualidade dos estudos. Elas podem complementar o tratamento médico; não devem ser vendidas como substitutas universais da THM ou de medicamentos quando estes são necessários.
No caso do sono, vale começar pela causa: a pessoa acorda por suor e calor? Ronca e para de respirar? Tem dificuldade de adormecer por ansiedade? A conduta muda conforme a resposta. Exercício e rotina de sono podem ajudar a saúde geral, mas não é adequado culpar a paciente por sintomas intensos nem prometer que “higiene do sono” sozinha resolverá tudo.
Alteração de humor é sempre menopausa?
Não. Oscilações de humor podem ocorrer nessa fase, às vezes associadas à privação de sono. Mas tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade importante ou prejuízo no trabalho e nos relacionamentos merecem avaliação específica. Depressão não deve ser tratada apenas como “falta de hormônio”. Quando ela é o problema predominante, é preciso cuidar da saúde mental diretamente, com psicoterapia, medicamentos ou ambos quando indicados.
Da mesma forma, a melhora dos fogachos com THM não garante que todos os sintomas emocionais vão desaparecer. É possível tratar simultaneamente a menopausa, o sono e um transtorno de humor, sem reduzir a mulher a um único diagnóstico.
Suplementos “naturais” resolvem?
A diretriz alerta que as evidências não sustentam prometer segurança e eficácia de fitoestrogênios — substâncias de plantas com alguma ação parecida com a do estrogênio — ou misturas de ervas para tratar esses sintomas. “Natural” não significa automaticamente eficaz ou seguro. Produtos podem interagir com medicamentos e variar em composição e qualidade. Antes de gastar com uma fórmula divulgada como solução para todos os sintomas da menopausa, converse com um profissional que possa avaliar as opções reais.
O que levar para a consulta?
Uma anotação simples já ajuda: frequência e intensidade dos fogachos; se há suor noturno e quantas vezes o sono é interrompido; mudanças de humor; padrão menstrual; medicamentos e suplementos em uso; histórico pessoal de trombose, câncer e doenças cardiovasculares. Diga também o que mais atrapalha a sua vida. Para algumas mulheres é o calor no trabalho; para outras, as noites mal dormidas.
Não é preciso esperar que todos os sintomas se tornem insuportáveis para buscar ajuda. E se houver ganho de peso ou mudança da composição corporal, isso merece uma conversa própria: THM não é remédio para emagrecer. Leia também sobre peso, gordura e músculo na perimenopausa.
Em resumo
A novidade não é uma solução única. A nova diretriz da ACOG amplia o olhar: tratar fogachos pode melhorar noites interrompidas pelo calor; outras causas de insônia e alterações de humor precisam ser investigadas; e existem caminhos hormonais, não hormonais e psicológicos a considerar. Uma boa consulta transforma essas possibilidades em um plano compatível com a saúde e as prioridades de cada mulher.
Fontes
- ACOG, Clinical Practice Guideline 13 — Management of Menopause-Related Vasomotor, Sleep, and Mood Symptoms (2026).
- ACOG — comunicado sobre a nova diretriz, 15 de outubro de 2026.
- ACOG — Hormone Therapy for Menopause: informações para pacientes.
- The Menopause Society — terapia hormonal: benefícios e riscos.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

