O Wegovy é mais importante que o Mounjaro no combate à obesidade

A semaglutida do Wegovy pode chegar a uma perda média próxima de 17% do peso em determinadas condições de estudo. Esse valor não é uma promessa individual nem deve ser comparado diretamente com o resultado de outro ensaio. Se a pergunta for “qual caneta produziu maior perda média de peso em uma comparação direta?”, o Mounjaro tem uma vantagem demonstrada no SURMOUNT-5. Ainda assim, proponho outra pergunta: qual medicamento pode alcançar mais pessoas no tratamento da obesidade nos próximos anos? É nesse sentido, ligado ao acesso e à continuidade do cuidado, que o Wegovy e a expansão da semaglutida podem se tornar mais importantes. Isso é uma possibilidade, não um resultado já comprovado.

Em março de 2026, expirou no Brasil a patente da semaglutida relacionada ao Ozempic. A Anvisa passou a registrar novas versões da molécula. Mas há uma distinção que muda toda a conversa: ter semaglutida na composição não significa ter aprovação em bula para obesidade. As primeiras novas canetas foram registradas para diabetes tipo 2. Entender essa diferença evita confundir marcas, doses, acesso e indicações.

Wegovy e Mounjaro: em que sentido um pode ser “mais importante”?

Wegovy é uma marca de semaglutida, medicamento que age no receptor de GLP-1, sinal envolvido na saciedade e no controle da glicose. Mounjaro contém tirzepatida, que age em dois receptores, GIP e GLP-1. No estudo SURMOUNT-5, realizado com adultos com obesidade e sem diabetes, a perda média de peso em 72 semanas foi de 20,2% com tirzepatida e 13,7% com semaglutida, nas doses toleradas pelo protocolo. Isso favorece a tirzepatida naquela comparação de peso; não significa que ela será a melhor escolha para toda pessoa ou em todo desfecho clínico.

O número de 13,7% não é uma perda de peso fixa da semaglutida. No estudo STEP 1, a perda média foi de 14,9% em 68 semanas; uma análise que estimou o efeito se todos permanecessem no tratamento apontou 16,9%. No STEP 4, participantes que já haviam completado 20 semanas iniciais com semaglutida e continuaram a usá-la chegaram a 17,4% de perda média desde o início, ao final de 68 semanas. São estudos e formas de análise diferentes, por isso seus percentuais não devem substituir os 13,7% da comparação direta do SURMOUNT-5.

A semaglutida também tem evidências próprias relevantes. No ensaio SELECT, a formulação injetável de 2,4 mg reduziu de 8,0% para 6,5% a ocorrência do desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, durante acompanhamento médio de 39,8 meses. A Anvisa incorporou uma indicação cardiovascular específica ao Wegovy. Esse dado não pode ser estendido a todas as pessoas com obesidade nem automaticamente às novas marcas registradas para diabetes.

“Mais importante”, portanto, é uma tese de saúde pública: se a concorrência reduzir custos de forma sustentável, houver oferta regular e as versões adequadas forem aprovadas para obesidade, a semaglutida poderá alcançar mais pacientes. Não há garantia de que isso ocorrerá; registro, preço, disponibilidade e capacidade de manter o tratamento são etapas distintas. O tamanho do efeito médio na balança e o impacto sobre o número de pessoas tratadas respondem a perguntas diferentes.

Quais são as marcas de semaglutida no Brasil?

A tabela separa a indicação para obesidade da indicação para diabetes. Ela reúne os nomes confirmados até 24 de outubro de 2026 em comunicados da Anvisa e registros públicos; a situação pode mudar com novas decisões regulatórias.

ProdutoOrigem e viaIndicação brasileira relevante
WegovyNovo Nordisk; injeção semanalControle de peso em condições previstas na bula; há também indicações específicas adicionais.
PoviztraNovo Nordisk; “clone” regulatório do Wegovy, injeçãoObesidade em adultos. É da fabricante do original, não um concorrente surgido da quebra da patente.
OzempicNovo Nordisk; injeção semanalDiabetes tipo 2 e indicações específicas associadas; não é a marca registrada para obesidade.
ExtensiorNovo Nordisk; outra marca vinculada ao OzempicFamília de apresentações voltadas ao diabetes; verificar bula da apresentação antes de prescrever.
RybelsusNovo Nordisk; comprimidosDiabetes tipo 2. Não confundir com o Wegovy oral aprovado em outro país.
OzivyEMS; semaglutida sintética injetávelDiabetes tipo 2; primeiro registro novo após o fim da patente.
Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e OrsemaNovas canetas de semaglutida sintéticaRegistros para diabetes tipo 2, por comparação com Ozempic.
SemacliqueGermed; medicamento similar injetávelDiabetes tipo 2; a Anvisa o descreveu como intercambiável com seu produto de referência Ozivy.
YlumécEMS; similar/clone vinculado ao OzivyDiabetes tipo 2, conforme registro publicado no Diário Oficial em agosto de 2026.
Semaglutida genérica, sem marca comercialRegistros de EMS e Germed; injeçãoDiabetes tipo 2 nas apresentações registradas. Genéricos são identificados pelo princípio ativo, não por nome de fantasia.

As aprovações do Ozivy, das cinco canetas de julho e do Semaclique e genérico da EMS foram comunicadas diretamente pela Anvisa. A agência descreve as novas versões sintéticas como produtos complexos, registrados após avaliação de qualidade, segurança e eficácia. Isso não as torna “canetas sem aprovação”, mas também não transforma uma bula para diabetes em uma bula para obesidade.

Uma combinação com semaglutida também recebeu registro: Kyinsu reúne insulina icodeca e semaglutida para diabetes. Não é uma semaglutida isolada nem uma opção registrada para tratar obesidade. Já Embeltah teve pedido de registro negado pela Anvisa em abril de 2026; não deve aparecer em uma lista de marcas aprovadas.

Por que a patente vencida não colocou um “Wegovy genérico” na farmácia?

Patente e registro sanitário são assuntos diferentes. O fim da proteção da molécula abre espaço à concorrência, mas cada apresentação ainda precisa ser avaliada e receber uma indicação própria. Uma caneta registrada com base em Ozempic, para diabetes, não herda automaticamente a indicação de Wegovy para obesidade nem suas doses. Tampouco se deve substituir produtos de forma livre: dose, concentração, dispositivo e critérios de intercambialidade precisam ser conferidos.

Usar um medicamento fora da indicação aprovada em sua bula é chamado de uso off label. Isso pode ser discutido em circunstâncias clínicas individuais, mas exige justificativa, informação clara ao paciente e acompanhamento; não muda o status regulatório da marca. O leitor que deseja entender as diferentes classes pode consultar o guia de medicamentos para obesidade.

E a semaglutida oral para obesidade?

No Brasil, Rybelsus é semaglutida oral registrada para diabetes tipo 2. Nos Estados Unidos, a agência FDA aprovou comprimidos de Wegovy para controle do peso. São produtos e esquemas distintos; “a semaglutida oral foi aprovada” só faz sentido depois de dizer qual apresentação, para qual indicação e em qual país.

No estudo OASIS 4, semaglutida oral de 25 mg ao dia levou à perda média estimada de 13,6% do peso em 64 semanas, contra 2,2% com placebo, em adultos com sobrepeso ou obesidade. Foi um estudo de uma formulação específica, não um teste de Rybelsus nas doses disponíveis no Brasil. Até esta checagem, não identifiquei registro da apresentação oral de Wegovy para obesidade pela Anvisa. Uma aprovação futura é possível, mas não se pode prometer data nem antecipar autorização.

O que ainda pode mudar — e o que não muda para o paciente?

Novos pedidos poderão receber registro, exigências técnicas ou negativa. Algumas marcas hoje autorizadas para diabetes poderão solicitar ampliação de indicação para obesidade; não há aprovação presumida. A concorrência também poderá afetar preços, mas queda de patente não equivale a queda imediata do custo total de meses ou anos de tratamento. E um medicamento registrado pode demorar a chegar à farmácia.

Para a pessoa que convive com obesidade, a escolha depende de doenças associadas, resposta anterior, efeitos adversos, contraindicações, preferências, disponibilidade e possibilidade real de continuidade. Alimentação, atividade física, sono, comportamento alimentar e preservação de massa muscular permanecem partes do cuidado. Medicamentos com GLP-1 exigem prescrição e acompanhamento; a Anvisa determina retenção da receita na dispensação.

Minha leitura é que o Wegovy pode ter um papel coletivo mais amplo se a trajetória da semaglutida de fato melhorar o acesso ao tratamento da obesidade. No consultório, porém, a pergunta não é qual marca “venceu”: é qual estratégia oferece benefício clínico apropriado e sustentável para aquela pessoa. Veja também por que emagrecer e tratar a obesidade não são a mesma coisa e como funciona a avaliação individualizada do emagrecimento, presencial em Bom Jesus do Itabapoana ou por telemedicina.

Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
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