Uma dúvida que aparece com frequência quando uma mulher procura avaliação por aumento de pelos é bastante objetiva: “Se eu tratar os hormônios, esses pelos vão sumir?”
A resposta precisa ser mais precisa do que um simples “sim” ou “não”. Quando existe uma causa hormonal — como síndrome dos ovários policísticos (SOP), aumento da ação dos andrógenos ou algumas alterações que aparecem ou se tornam mais evidentes depois da menopausa — o tratamento médico pode reduzir o estímulo para o nascimento de novos pelos e diminuir a velocidade com que eles crescem. Mas isso não significa que os fios grossos e escuros que já se transformaram em pelos terminais desaparecerão sozinhos.
Na prática, eu gosto de separar o problema em duas partes: primeiro, entender por que novos pelos estão surgindo; depois, tratar os pelos que já estão presentes. É exatamente por isso que, em muitas mulheres, o melhor resultado depende da combinação entre avaliação endocrinológica e um método adequado de remoção dos fios.
Nem todo “excesso de pelos” é a mesma coisa
Quando falamos de pelos em mulheres, é importante diferenciar duas situações. O hirsutismo é o crescimento de pelos terminais — mais grossos, escuros e compridos — em áreas que respondem aos andrógenos, como queixo, região acima dos lábios, tórax, linha central do abdome, costas e parte interna das coxas. Já a hipertricose é um aumento de pelos que pode acontecer em outras regiões e nem sempre tem relação com excesso de andrógenos.
Essa distinção muda completamente a investigação. Uma mulher que sempre teve alguns pelos finos no rosto não está necessariamente diante de uma doença hormonal. Por outro lado, quando os pelos engrossam, aumentam progressivamente, aparecem junto com acne, queda de cabelo no padrão feminino ou alterações menstruais, a investigação endocrinológica passa a fazer muito mais sentido.
Quando os pelos podem ser um sinal hormonal
A causa mais comum de hirsutismo em mulheres em idade reprodutiva é a síndrome dos ovários policísticos. A SOP pode se manifestar com ciclos irregulares, dificuldade de ovulação, acne, aumento de pelos, queda de cabelo de padrão androgênico e, em parte das mulheres, alterações metabólicas como resistência à insulina e ganho de peso. Mas nem toda mulher com SOP apresenta todos esses sinais, e nem todo excesso de pelos significa SOP.
Por isso, eu não considero adequado olhar apenas para o pelo. A história menstrual, a velocidade com que os fios apareceram, a presença de acne, a distribuição dos pelos, o padrão de queda de cabelo, o uso de medicamentos e o contexto metabólico ajudam a decidir quais exames realmente são necessários.
O tema faz parte da avaliação endocrinológica porque o objetivo não é simplesmente “baixar testosterona”. É identificar se existe hiperandrogenismo, qual pode ser sua origem e se há alguma condição que precisa de tratamento específico.
E depois da menopausa? Ter mais pelos é sempre normal?
Depois da menopausa, algumas mulheres percebem que os pelos do queixo e do rosto se tornam mais evidentes. Isso pode acontecer porque o ambiente hormonal muda: os estrogênios diminuem de forma importante, enquanto a queda dos andrógenos ocorre de maneira diferente. Essa mudança de equilíbrio pode tornar alguns efeitos androgênicos mais perceptíveis.
Mas existe uma diferença importante entre alguns fios que aparecem lentamente ao longo dos anos e um quadro de crescimento rápido, intenso e progressivo.
Quando uma mulher na pós-menopausa começa a desenvolver hirsutismo rapidamente, principalmente se vier acompanhado de voz mais grossa, aumento importante de massa muscular, queda de cabelo intensa, aumento do clitóris ou outros sinais de virilização, isso não deve ser simplesmente atribuído à menopausa. Nesses casos, é preciso investigar causas menos comuns, como hiperandrogenismo ovariano importante, hiperplasia/hipertecose ovariana e tumores produtores de andrógenos.
Por isso, mudanças hormonais da menopausa podem fazer parte da história, mas não explicam automaticamente todo aumento de pelos. Esse raciocínio é semelhante ao que utilizamos ao avaliar outras alterações hormonais nessa fase da vida, como discuto também nos conteúdos sobre menopausa e terapia hormonal e sobre mudanças metabólicas na perimenopausa.
O tratamento médico controla a “fábrica”; a depilação trata o que já foi produzido
Essa é, para mim, a forma mais simples de explicar o tratamento.
Quando existe estímulo androgênico excessivo, o tratamento médico busca reduzir a produção desses hormônios, diminuir sua ação sobre o folículo piloso ou tratar a doença que está provocando o hiperandrogenismo. Em mulheres com SOP, por exemplo, contraceptivos hormonais combinados podem ser utilizados em situações apropriadas, e medicamentos com ação antiandrogênica podem ser considerados em casos selecionados. A escolha depende da idade, do desejo de engravidar, dos riscos individuais, das contraindicações e do diagnóstico.
Esses tratamentos não devem ser iniciados de forma autônoma. Alguns antiandrogênicos, por exemplo, exigem contracepção eficaz quando existe possibilidade de gestação, além de acompanhamento médico adequado.
Outro ponto que costuma frustrar quem espera uma resposta rápida é o tempo. O ciclo do pelo é lento. Mesmo quando o tratamento hormonal está correto, a melhora clínica costuma ser avaliada em meses, e não em semanas. Diretrizes internacionais utilizam frequentemente períodos de pelo menos seis meses para julgar adequadamente a resposta de algumas estratégias para hirsutismo.
Por que o pelo que já ficou grosso não desaparece quando os hormônios melhoram?
Porque o folículo que sofreu estímulo androgênico pode ter se transformado. Um pelo originalmente mais fino e discreto pode se tornar um pelo terminal, mais grosso, pigmentado e visível. Corrigir o estímulo hormonal pode reduzir a velocidade de crescimento, diminuir o aparecimento de novos fios e, em algumas mulheres, tornar parte dos pelos menos vigorosos. Mas o tratamento médico não funciona como um procedimento de epilação.
Esse é um ponto essencial: normalizar ou controlar o ambiente hormonal não significa remover automaticamente todos os pelos terminais que já existem.
É por isso que uma mulher pode estar com a SOP bem controlada, ciclos mais regulares e exames melhores e, ainda assim, continuar vendo aqueles pelos antigos no queixo. Isso não significa necessariamente que o tratamento falhou. Pode significar apenas que a parte hormonal do problema melhorou, enquanto a parte estética ainda precisa ser tratada diretamente.
Laser, eletrólise e outros métodos: qual é o papel de cada um?
Quando os fios já estão estabelecidos, os métodos de remoção passam a ter uma função própria.
A depilação a laser e outros métodos de fotoepilação costumam funcionar melhor em pelos escuros, porque dependem da presença de pigmento para atingir o folículo. Em mulheres com SOP, pode ser necessário um número maior de sessões e, em alguns casos, sessões de manutenção, especialmente quando o estímulo hormonal continua ativo.
Para pelos brancos, grisalhos ou muito claros, o laser tende a ser menos eficaz. Nesses casos, a eletrólise pode ser uma alternativa mais apropriada. Métodos temporários — como lâmina, cera, pinça ou linha — também podem ser utilizados conforme a preferência da mulher. Eles removem ou cortam o fio, mas não tratam a causa hormonal.
Também é importante escolher o tipo de laser e os parâmetros de acordo com a cor da pele e do pelo. Em fototipos mais altos, a tecnologia e a experiência do profissional fazem diferença tanto para a eficácia quanto para reduzir risco de queimaduras e alterações de pigmentação.
Por que tratar apenas com laser pode não ser suficiente
Se o estímulo hormonal continua ativo, novos folículos podem continuar sendo recrutados e novos pelos terminais podem surgir. A mulher faz laser, melhora durante um período, mas depois percebe fios aparecendo em outras áreas ou necessidade frequente de manutenção.
Nessa situação, o problema não é necessariamente “o laser não funcionar”. Às vezes, ele está tratando corretamente os fios existentes, enquanto a causa hormonal continua estimulando novos pelos.
O raciocínio inverso também vale: tratar apenas o hiperandrogenismo, sem fazer nenhum método de remoção, pode controlar a formação de novos pelos, mas deixar vários fios terminais já estabelecidos.
É por isso que, quando existe uma causa hormonal confirmada, a associação entre tratamento médico e remoção direta dos pelos costuma ser mais coerente do que esperar que uma única estratégia resolva todas as partes do problema.
Quando eu considero importante procurar avaliação médica
Eu recomendo avaliação principalmente quando o crescimento dos pelos é novo ou progressivo, quando há alteração menstrual, acne importante, queda de cabelo, dificuldade para engravidar, sinais de resistência à insulina ou quando o quadro surgiu ou piorou de forma relevante após a menopausa.
O aparecimento rápido de pelos grossos, especialmente acompanhado de sinais de virilização, merece atenção ainda maior. Diretrizes recentes para investigação de excesso de andrógenos em mulheres reforçam que início tardio, progressão rápida e alterações hormonais muito acentuadas aumentam a necessidade de excluir causas diferentes da SOP e, em alguns casos, investigar rapidamente ovários e adrenais.
O objetivo não é escolher entre endocrinologista ou depilação
Essa talvez seja a principal mensagem deste artigo.
Quando há hirsutismo relacionado à SOP, à menopausa ou a outra condição com aumento da produção ou da ação dos andrógenos, o tratamento médico tem um papel: reduzir o estímulo para que novos pelos continuem surgindo ou se tornando mais grossos.
A depilação a laser, a eletrólise e outros métodos têm outro papel: lidar diretamente com os fios que já existem.
São tratamentos complementares, não concorrentes. Quando cada um é utilizado para aquilo que realmente consegue fazer, a expectativa fica mais realista e o resultado tende a ser mais consistente ao longo do tempo.
Se houver suspeita de uma alteração hormonal, especialmente em casos de SOP, mudança rápida do padrão de pelos ou aparecimento após a menopausa, a investigação pode ser feita presencialmente ou por telemedicina em todo o Brasil, com indicação de exames e encaminhamentos conforme cada caso.
Referências
Endocrine Society. Evaluation and Treatment of Hirsutism in Premenopausal Women: Clinical Practice Guideline.
International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome 2023. Recommendations for PCOS assessment and management.
Society for Endocrinology. Clinical Practice Guideline for the Evaluation of Androgen Excess in Women, 2025.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

