
Você passa o dia tentando organizar a alimentação, encontra um horário para se exercitar e, à noite, o sono não vem. Ou dorme por várias horas, mas acorda cansada. Na manhã seguinte, há menos disposição e as escolhas alimentares podem ficar mais difíceis. Antes de atribuir tudo à “falta de disciplina”, vale olhar para a qualidade das noites.
O sono participa do controle do apetite, da atenção, do humor e da saúde metabólica. Para muitas mulheres, ele também muda durante a perimenopausa e a menopausa. Alguns hábitos podem ser ajustados. Se o problema persiste, é preciso investigar a causa, sem culpar a pessoa por não conseguir dormir.
O que o sono tem a ver com o peso?
Dormir pouco não causa obesidade sozinho, e dormir mais não é um tratamento isolado para emagrecer. Mas noites curtas podem favorecer maior ingestão de alimentos, aumentar o tempo disponível para beliscar e reduzir energia para planejar refeições e manter a atividade física. Há também uma relação em sentido contrário: o excesso de peso pode aumentar o risco de apneia do sono, condição em que a respiração é interrompida repetidamente durante a noite.
Em um estudo clínico com adultos com sobrepeso que habitualmente dormiam pouco, pessoas orientadas a ampliar o tempo de sono dormiram, em média, cerca de 1,2 hora a mais e consumiram aproximadamente 270 calorias a menos por dia durante duas semanas, em comparação ao grupo que manteve a rotina. É um resultado interessante, não uma promessa de emagrecimento: o estudo foi curto e não permite prever a resposta de cada pessoa no longo prazo. Leia também o artigo sobre sono ruim e emagrecimento.
Por que tantas mulheres passam a dormir pior?
Não existe uma explicação única. Trabalho, cuidados com a família, estresse, horários irregulares, dor, ansiedade e certos medicamentos podem interferir no descanso. Na perimenopausa e na menopausa, os fogachos — ondas de calor — e os suores noturnos podem interromper o sono. Mas nem todo despertar nessa fase é causado pelos hormônios.
A apneia obstrutiva do sono (pausas ou redução da respiração enquanto a pessoa dorme) também pode ocorrer em mulheres e se tornar mais frequente após a menopausa. Às vezes, ela aparece como cansaço, dor de cabeça matinal, insônia ou despertares frequentes, mesmo sem o ronco que se costuma associar à doença. Veja também o que muda no peso e na composição corporal durante a perimenopausa e as opções de cuidado para fogachos, sono e humor.
Quantas horas são suficientes?
Como referência geral, adultos devem dormir pelo menos sete horas por noite de forma regular. Muitas pessoas se sentem melhor com algo entre sete e nove horas, mas a necessidade individual varia. O número de horas não conta a história inteira: acordar repetidas vezes, ter horários muito variáveis ou passar o dia com sonolência também merece atenção.
Repare na diferença entre “não consigo dormir apesar de reservar tempo” e “estou dormindo pouco porque só me deito de madrugada”. As soluções para essas duas situações podem ser diferentes.
Higiene do sono: o que fazer na prática?
Higiene do sono é o nome dado aos hábitos e condições que favorecem o descanso. Pense nela como uma rotina possível, não como uma lista de regras para cumprir perfeitamente. Escolha dois ou três ajustes para começar e observe como você se sente ao longo das próximas semanas.
- Escolha um horário de acordar que caiba na sua vida. Procure mantê-lo parecido também nos fins de semana. A regularidade ajuda o relógio biológico; se a rotina permitir, reserve tempo suficiente para dormir.
- Busque luz natural pela manhã e movimento ao longo do dia. Uma caminhada ou outro exercício regular pode ajudar. Se o treino intenso perto da hora de dormir a deixa alerta, antecipe-o.
- Proteja a última parte da noite. Na meia hora a uma hora antes de deitar, diminua luzes fortes e tarefas estimulantes. Afaste o celular se ele prende sua atenção; um filtro de tela sozinho não resolverá a insônia.
- Observe a cafeína. Café, energéticos, chá-preto e alguns pré-treinos podem atrapalhar o sono, sobretudo à tarde e à noite. A sensibilidade varia: registre o horário e veja se há relação com as noites difíceis.
- Prepare o ambiente. Um quarto escuro, silencioso, confortável e com temperatura agradável favorece o descanso. Se houver fogachos, considere roupas de cama leves e converse com seu médico sobre o tratamento do sintoma.
- Evite usar álcool como “remédio para dormir”. Ele pode dar sonolência no início, mas costuma prejudicar a continuidade e a qualidade do sono. Refeições muito grandes imediatamente antes de deitar também podem incomodar.
- Não transforme a cama em uma disputa. Se estiver desperta e frustrada por muito tempo, levante-se, faça algo calmo sob pouca luz e volte quando o sono vier. Evite ficar conferindo o relógio e cobrando de si uma noite perfeita.
Por exemplo: se você precisa acordar às 6h30, pode começar mantendo esse horário, reduzindo café após o almoço e criando uma meia hora mais tranquila à noite. Uma rotina viável por muitos dias costuma ser mais útil do que mudar tudo de uma vez e abandonar em três noites.
Quando a higiene do sono não resolve?
Não espere meses se o sono já está prejudicando seu dia. Procure avaliação médica se a dificuldade para iniciar ou manter o sono é frequente, se você acorda sem descanso, se a sonolência interfere no trabalho ou na direção, ou se houve mudança importante do seu padrão de sono. Ronco alto, engasgos, pausas na respiração percebidas por outra pessoa e dor de cabeça matinal merecem investigação de apneia.
Na consulta, pode ser necessário avaliar medicamentos, saúde mental, dor, sintomas da menopausa e outras condições clínicas. Dependendo da suspeita, o profissional pode indicar um exame do sono, como a polissonografia. Para insônia crônica — dificuldade de dormir que ocorre pelo menos três vezes por semana durante três meses, com repercussão durante o dia —, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é tratamento de primeira linha. Trata-se de um acompanhamento estruturado que trabalha hábitos, pensamentos e a relação entre cama e sono; higiene do sono sozinha não substitui esse tratamento.
Não comece por conta própria remédios para dormir, suplementos ou melatonina esperando resolver qualquer tipo de insônia. O tratamento depende da causa. Se há sonolência ao volante, evite dirigir até ser avaliada.
Uma anotação simples pode ajudar na consulta
Durante uma ou duas semanas, anote a hora em que se deita e acorda, despertares, cochilos, cafeína, álcool, exercícios, fogachos e como se sente durante o dia. Registre também se alguém observa ronco ou pausas na respiração. Esse diário dá pistas mais úteis do que tentar se lembrar, na consulta, de uma “noite média”.
O sono faz parte da avaliação da saúde metabólica e do tratamento individualizado do peso. Se as noites difíceis coexistem com ganho de peso, cansaço ou sintomas hormonais, a consulta pode organizar essas peças sem reduzir tudo a uma única explicação. Conheça a avaliação em endocrinologia e o Programa EmagreSER. O atendimento é presencial em Bom Jesus do Itabapoana (RJ) ou por telemedicina para todo o Brasil.
Em resumo
Regularidade, luz pela manhã, atenção à cafeína e um ambiente propício são passos concretos para começar. Eles podem melhorar o descanso e apoiar o cuidado com o peso e a saúde geral. Quando há insônia persistente, sintomas da menopausa que interrompem as noites ou sinais de apneia, buscar ajuda médica é parte do tratamento, não um fracasso da higiene do sono.
Fontes científicas
- American Academy of Sleep Medicine e Sleep Research Society. Recomendação de duração de sono para adultos.
- CDC. About Sleep: benefícios, qualidade e hábitos de sono.
- NHLBI/NIH. Healthy Sleep Habits.
- NIH. Estudo clínico sobre extensão do sono e ingestão energética.
- Associação Brasileira do Sono. Diretrizes para diagnóstico e tratamento da insônia em adultos, 2023.
- NHLBI/NIH. Apneia do sono em mulheres.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

