Refrigerante zero emagrece? O que um estudo de dois anos realmente mostrou

Uma notícia que voltou a circular em 19 de outubro de 2026 trouxe uma comparação que parece simples: para quem tenta emagrecer, seria melhor beber refrigerante zero ou água? A manchete chama atenção, mas o resultado do estudo é mais moderado. Depois de dois anos, os participantes dos dois grupos perderam peso; a diferença entre eles não foi estatisticamente significativa. Isso não autoriza dizer que refrigerante zero emagrece mais que água.

A pesquisa original foi publicada em 4 de agosto de 2026 no British Journal of Nutrition. Portanto, a notícia é recente, mas o trabalho científico não saiu ontem. Essa distinção ajuda a ler a novidade sem pressa nem exagero.

O que foi comparado no estudo?

O ensaio SWITCH incluiu 493 adultos com sobrepeso ou obesidade, com índice de massa corporal (IMC) entre 27 e 35 kg/m². Os pesquisadores sortearam os participantes para consumir diariamente água ou bebidas adoçadas sem açúcar, como refrigerantes diet ou zero. Eram pessoas habituadas a bebidas frias, sem diabetes conhecido e sem algumas outras condições clínicas; os resultados não representam automaticamente todos os pacientes.

Os dois grupos participaram do mesmo programa de mudança de hábitos. Houve 12 semanas de emagrecimento com reuniões semanais, mais 40 semanas de manutenção acompanhada e, para quem aceitou continuar, mais 52 semanas sem esse apoio regular. Em outras palavras, o estudo comparou bebidas dentro de um tratamento comportamental; ele não testou se trocar um copo, isoladamente, faz alguém perder peso.

Refrigerante zero ou água: qual grupo perdeu mais peso?

Ao fim de 104 semanas, a perda média em relação ao começo foi de 4,8 kg no grupo das bebidas sem açúcar e 3,7 kg no grupo da água. A diferença numérica de 1,1 kg não foi estatisticamente significativa. Essa expressão quer dizer que, com os dados obtidos, não há segurança suficiente para atribuir a diferença ao tipo de bebida, em vez de à variação esperada entre grupos.

É tentador olhar apenas para o 4,8 versus 3,7 e concluir que o refrigerante zero “venceu”. O estudo não sustenta essa conclusão. Também não prova que toda bebida zero tenha o mesmo efeito que água em qualquer quantidade e para qualquer pessoa. O resultado mais útil é que, nesse contexto de acompanhamento, beber a opção sem açúcar não impediu o emagrecimento observado.

Outro detalhe importante: dos 493 participantes inicialmente distribuídos, 220 tinham medida de peso no início e ao fim de dois anos. A etapa final era voluntária. Essa perda de acompanhamento reduz a certeza sobre o que teria acontecido com todos os participantes e exige cautela ao aplicar a média à vida real.

O que muda para quem está tentando emagrecer?

O comparador faz toda a diferença. Trocar uma bebida açucarada por uma versão sem açúcar pode diminuir a ingestão de açúcar e calorias daquela bebida, desde que a pessoa não compense consumindo mais em outros momentos. Já comparar a versão zero com água é outra pergunta: nesse ensaio, não apareceu uma vantagem comprovada de peso para uma delas.

A água continua sendo uma escolha simples para a hidratação do dia a dia. Para uma pessoa que costuma tomar refrigerante comum, uma bebida sem açúcar pode funcionar como uma etapa prática de redução do consumo de açúcar. Para outra, o sabor doce pode manter um hábito que ela prefere diminuir. Nenhuma dessas decisões precisa virar uma regra moral sobre “poder” ou “não poder” beber algo.

Também importa o conjunto da rotina: alimentação, atividade física, sono, comportamento alimentar, saúde metabólica e tratamento individualizado. Quem convive com obesidade de longa duração ou com o efeito sanfona pode encontrar no artigo Emagrecer não é o mesmo que tratar a obesidade uma explicação sobre por que o número da balança é apenas parte da avaliação. Na página de acompanhamento do emagrecimento, explico como essa visão se traduz em cuidado clínico.

E os adoçantes: a OMS não recomendou evitá-los para emagrecer?

Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que adoçantes sem açúcar não sejam usados como estratégia de controle de peso em políticas de saúde. A recomendação é condicional: a OMS reconhece incertezas, inclusive a possibilidade de que associações observadas em estudos de longo prazo reflitam diferenças prévias entre as pessoas, e não efeito causado pelo adoçante. A diretriz também não se aplica a pessoas com diabetes pré-existente.

O ensaio SWITCH acrescenta uma informação útil a esse debate, porque acompanhou por mais tempo grupos definidos por sorteio. Ele não resolve sozinho todas as perguntas da diretriz: estudou um grupo específico, em um programa estruturado, e avaliou principalmente peso. Não demonstrou que bebidas adoçadas protegem o coração, previnem diabetes ou são superiores à água para a saúde geral.

Quais são as limitações que a manchete deixou de fora?

O estudo foi realizado em um único centro no Reino Unido, sem coleta de dados de raça ou etnia, e a conclusão de dois anos teve participação reduzida. O programa de acompanhamento pode ter influenciado muito mais o resultado do que a bebida. Pessoas com diabetes e algumas doenças foram excluídas; por isso, não devemos extrapolar diretamente para esses grupos.

A pesquisa foi financiada pela American Beverage Association, entidade do setor de bebidas. Os autores declararam que o financiador não controlou o desenho, a condução, a análise nem a decisão final do texto; houve oportunidade de revisar o manuscrito. Isso não invalida automaticamente o ensaio, mas é uma informação relevante para avaliar a evidência com transparência.

Por fim, “não houve diferença significativa” não significa que se provou segurança absoluta ou identidade perfeita entre todas as bebidas. O estudo oferece uma resposta a uma pergunta delimitada: como evoluiu o peso de adultos em acompanhamento, orientados a beber água ou bebidas sem açúcar por dois anos.

Como decidir na prática?

Se você já prefere água, não há motivo para trocar por refrigerante zero esperando emagrecer mais. Se bebe refrigerante comum com frequência, reduzir o açúcar dessa fonte pode ser uma mudança útil. Observe a quantidade, o restante da alimentação, preferências e condições de saúde. O plano alimentar detalhado deve ser ajustado com nutricionista quando necessário, e o tratamento médico da obesidade deve considerar risco, objetivos, composição corporal e comorbidades.

O estudo nos ajuda a sair do pensamento de tudo ou nada: uma bebida isolada não define o sucesso de um tratamento. Quando há dificuldade para perder ou manter peso, é mais produtivo investigar o quadro inteiro do que procurar um único produto “certo”. Para entender uma abordagem longitudinal, veja também o programa estruturado EmagreSER.

Referências

Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

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