Os medicamentos que atuam sobre os hormônios intestinais GLP-1 e GIP transformaram o tratamento da obesidade nos últimos anos. Agora, uma nova molécula começa a chamar atenção: a enicepatide, anteriormente conhecida como CT-388.
Em 22 de setembro de 2026, foram divulgados novos resultados de um estudo de fase 2 envolvendo adultos com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. Na maior dose testada, os participantes apresentaram, em média, 15,5% de redução do peso corporal após 48 semanas. A hemoglobina glicada também caiu de forma expressiva.
Os números são relevantes, mas precisam ser interpretados com cuidado. A enicepatide ainda é um medicamento experimental, não está disponível para prescrição rotineira e os resultados mais recentes foram divulgados como dados topline pela fabricante. Portanto, ainda precisamos da publicação completa do estudo e dos ensaios de fase 3 para definir seu verdadeiro papel no tratamento.
O que é a enicepatide?
A enicepatide é um medicamento injetável de aplicação semanal desenvolvido para atuar simultaneamente em dois receptores envolvidos no metabolismo: GLP-1 e GIP.
Essa combinação lembra o mecanismo da tirzepatida, que também atua nessas duas vias hormonais. O objetivo é influenciar mecanismos relacionados à fome, saciedade, controle da glicose e balanço energético.
Existe, porém, uma particularidade farmacológica. A enicepatide foi desenvolvida para produzir sinalização predominantemente via cAMP com recrutamento mínimo de beta-arrestina nos receptores GLP-1 e GIP. Em estudos laboratoriais, isso se associou a menor internalização desses receptores, uma característica que pode prolongar a sinalização farmacológica.
Esse mecanismo já foi descrito em publicação científica revisada por pares no Molecular Metabolism. Ainda assim, uma característica molecular interessante não significa automaticamente superioridade clínica. Isso precisa ser demonstrado em estudos comparativos e de longa duração.
O que mostrou o novo estudo?
O estudo CT-388-104 (NCT06628362) foi um ensaio clínico de fase 2, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e multicêntrico. Foram incluídos 447 adultos entre 18 e 75 anos com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade.
Os participantes receberam diferentes doses de enicepatide ou placebo durante 48 semanas. Os dois principais desfechos foram mudança da hemoglobina glicada e do peso corporal.
Na dose mais alta avaliada, de 24 mg por semana, a redução média do peso corporal foi de 15,5% em 48 semanas. Segundo a divulgação da Roche, a curva de perda de peso ainda não apresentava um platô demonstrável ao final desse período.
O efeito sobre a glicose também chamou atenção
Na dose de 24 mg, a hemoglobina glicada caiu, em média, 2,65 pontos percentuais, partindo de uma HbA1c média inicial de aproximadamente 8,1%.
Ao final das 48 semanas, segundo os resultados divulgados:
- 90% dos participantes no grupo de 24 mg atingiram HbA1c igual ou inferior a 6,5%;
- 62% apresentaram HbA1c abaixo de 5,7%.
Esse segundo valor corresponde à faixa laboratorial considerada não diabética. Isso, porém, não significa cura do diabetes. Uma glicemia normal enquanto a pessoa utiliza um tratamento eficaz não demonstra que a doença desapareceu.
Perder 15,5% do peso é muito?
Para uma pessoa com 100 kg, uma redução de 15,5% corresponderia, em média, a aproximadamente 15,5 kg. Mas esse cálculo serve apenas como ilustração: a resposta individual pode variar bastante.
Também é importante lembrar que a população desse estudo tinha diabetes tipo 2. Em ensaios com terapias incretínicas, pessoas com diabetes frequentemente apresentam uma perda de peso média diferente daquela observada em pessoas com obesidade sem diabetes.
Por isso, não devemos comparar percentuais de estudos diferentes como se os medicamentos tivessem sido testados lado a lado nas mesmas condições.
A enicepatide é um novo Mounjaro?
A resposta mais adequada hoje é: é outra molécula que também atua nos receptores GLP-1 e GIP, mas ainda não sabemos qual será seu lugar no tratamento da obesidade.
Enicepatide e tirzepatida não são o mesmo medicamento. Existem diferenças na estrutura molecular e na forma como os receptores são ativados.
Mais importante: ainda não existe um grande ensaio clínico comparando diretamente enicepatide e tirzepatida para permitir uma conclusão segura sobre superioridade.
Comparações indiretas entre estudos podem ser enganosas porque idade, peso inicial, presença de diabetes, dose, duração, critérios de inclusão e perfil dos participantes podem ser diferentes.
E os efeitos colaterais?
Segundo os dados divulgados até agora, os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais e, em sua maioria, leves a moderados. Esse padrão é semelhante ao observado com outras terapias baseadas em incretinas.
No estudo recém-divulgado, cerca de 2% dos participantes que receberam enicepatide interromperam o tratamento por eventos adversos, enquanto não houve interrupção por esse motivo no grupo placebo.
Ainda precisamos de estudos maiores para identificar eventos menos frequentes e entender melhor a segurança com uso prolongado.
A enicepatide já está aprovada?
Não. A enicepatide continua sendo um medicamento investigacional.
A Roche já conduz estudos de fase 3 em controle crônico do peso e informou que pretende ampliar o programa de desenvolvimento, incluindo estudos de controle glicêmico e desfechos cardiovasculares.
Antes de eventual aprovação, ainda será necessário responder questões como:
- se os benefícios serão confirmados em populações maiores;
- qual será a melhor dose;
- como será a manutenção do peso em longo prazo;
- qual será o impacto cardiovascular;
- quais eventos adversos poderão surgir em estudos maiores;
- como o medicamento se posicionará frente às terapias já disponíveis.
Por que estão surgindo tantos novos medicamentos para obesidade?
Estamos entrando em uma nova fase do tratamento da obesidade. Durante décadas, as opções farmacológicas produziam reduções relativamente modestas de peso para muitos pacientes. A chegada das terapias baseadas em incretinas mudou esse cenário.
Agora, a pesquisa busca medicamentos capazes de atuar simultaneamente em diferentes vias hormonais, incluindo GLP-1, GIP, glucagon, amilina e outros sistemas relacionados à fome, saciedade e metabolismo.
Mas o objetivo não deveria ser apenas produzir o maior número possível de perda de peso. O tratamento precisa buscar redução de gordura corporal, melhora das doenças associadas, preservação da massa magra e redução do risco cardiometabólico.
Mais perda de peso não significa automaticamente melhor tratamento
Quando surgem estudos mostrando reduções de 15%, 20% ou mais do peso corporal, existe uma tendência de transformar o maior número no “melhor medicamento”. Na prática clínica, a decisão é mais complexa.
O tratamento precisa equilibrar eficácia, segurança, tolerabilidade, composição corporal, doenças associadas, acesso, custo, manutenção e preferências do paciente.
Também precisamos avaliar a qualidade da perda de peso. Uma pessoa não deveria simplesmente perder quilos. Idealmente, o tratamento deve favorecer redução predominante de gordura com preservação da massa magra e da capacidade funcional.
Por isso, treinamento de força, alimentação adequada, sono, comportamento alimentar e acompanhamento da composição corporal continuam importantes mesmo quando o medicamento é muito eficaz.
O que podemos concluir hoje?
Os resultados iniciais são promissores. Em adultos com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade, a maior dose estudada produziu redução média de 15,5% do peso corporal e uma redução média de 2,65 pontos percentuais na HbA1c em 48 semanas.
Mas esses resultados recentes ainda são dados divulgados pela própria empresa responsável pelo desenvolvimento da molécula. A publicação científica completa permitirá analisar detalhes como métodos, dados por grupo, perdas de seguimento e análises estatísticas.
Estudos de fase 3 serão decisivos para mostrar se a eficácia e a segurança se mantêm em populações maiores.
O que isso significa para quem já trata obesidade?
Não existe motivo para interromper ou trocar um tratamento eficaz simplesmente porque surgiu uma nova molécula em pesquisa.
Semaglutida e tirzepatida já possuem um volume muito maior de evidências clínicas e experiência de uso. A enicepatide mostra, sobretudo, que o tratamento da obesidade continuará evoluindo rapidamente nos próximos anos.
Quanto mais opções eficazes e seguras estiverem disponíveis, maior será a possibilidade de individualizar o tratamento. Obesidade não é uma doença igual em todas as pessoas. Seu tratamento também não deveria ser.
Perguntas frequentes
Enicepatide já pode ser comprada?
Não. É um medicamento experimental em desenvolvimento clínico e ainda não está disponível para tratamento rotineiro.
Enicepatide é igual à tirzepatida?
Não. As duas atuam nos receptores GLP-1 e GIP, mas são moléculas diferentes e apresentam características farmacológicas diferentes.
Enicepatide emagrece mais que Mounjaro?
Ainda não é possível afirmar. Não existe um grande estudo comparando diretamente enicepatide e tirzepatida.
A perda de peso foi de 15,5% para todos?
Não. Esse valor representa a média do grupo que recebeu a maior dose no estudo em pessoas com diabetes tipo 2.
Quando a enicepatide poderá ser aprovada?
Ainda não existe uma data definitiva. O medicamento precisa concluir o desenvolvimento clínico e passar pela avaliação das agências regulatórias.
Fontes
Roche. Positive Phase II results for dual GLP-1/GIP receptor agonist enicepatide in people living with type 2 diabetes and overweight or obesity. 22 set. 2026. Acessar a divulgação oficial.
Estudo CT-388-104. NCT06628362. Ensaio de fase 2 em adultos com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. Acessar informações do estudo.
Effects of CT-388, a once-weekly signaling-biased dual GLP-1/GIP receptor agonist, on weight loss and glycemic control in preclinical models and participants with obesity. Molecular Metabolism. Acessar o artigo científico.
Para saber mais sobre tratamento da obesidade, veja também minha página sobre emagrecimento e obesidade, conheça o Programa EmagreSER e consulte informações sobre consulta online.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

