“É só fechar a boca.”
“Se realmente quisesse, você emagreceria.”
“Você precisa ter mais força de vontade.”
“Como você deixou chegar a esse ponto?”
“Seu problema é preguiça.”
Essas frases ainda fazem parte da vida de muitas pessoas com obesidade. Às vezes são ditas como crítica. Em outras situações, aparecem disfarçadas de preocupação, conselho ou até brincadeira. Independentemente da intenção, elas reforçam uma ideia incorreta e dolorosa: a de que o peso corporal seria apenas consequência das escolhas, da disciplina ou do caráter de uma pessoa.
Não é.
A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Seu desenvolvimento envolve genética, funcionamento cerebral, controle de fome e saciedade, ambiente alimentar, sono, medicamentos, condições hormonais e metabólicas, saúde mental, experiências de vida e fatores sociais.
Quando toda essa complexidade é reduzida a “falta de vergonha” ou “falta de força de vontade”, surge o estigma da obesidade. E esse estigma não ajuda ninguém a emagrecer. Ao contrário: produz sofrimento, prejudica a saúde e pode atrasar justamente o tratamento de que a pessoa necessita.
O que é o estigma da obesidade?
O preconceito relacionado ao peso pode aparecer em diferentes níveis.
O viés de peso corresponde às crenças e aos julgamentos negativos sobre pessoas com corpos maiores. É o que acontece quando alguém presume, apenas pela aparência, que aquela pessoa é preguiçosa, descontrolada, desleixada, pouco inteligente ou incapaz de cuidar da própria saúde.
O estigma de peso surge quando esses estereótipos diminuem o valor social da pessoa e passam a influenciar a maneira como ela é tratada.
A discriminação, por sua vez, ocorre quando o preconceito se transforma em tratamento injusto: constrangimento, exclusão, menor acesso a oportunidades, atendimento inadequado ou humilhação.
O problema pode estar na família, na escola, no trabalho, nos relacionamentos, nas redes sociais e até nos serviços de saúde.
Também existe o estigma internalizado. Depois de ouvir repetidamente que seu corpo representa fracasso, falta de controle ou inferioridade, a própria pessoa pode começar a acreditar nisso. Ela deixa de pensar “eu tenho uma doença que precisa ser tratada” e passa a pensar “eu sou o problema”.
Essa mudança parece pequena, mas tem consequências profundas.
Palavras que ferem — mesmo quando são apresentadas como conselho
O preconceito nem sempre aparece em uma agressão explícita. Muitas vezes está em comentários considerados socialmente aceitáveis:
- “Você tem um rosto tão bonito; se emagrecesse, ficaria ainda melhor.”
- “Ninguém engorda comendo pouco.”
- “É só parar de comer besteira.”
- “Na sua idade, você já deveria ter se cuidado.”
- “Você não tem medo de morrer?”
- “Se eu estivesse no seu lugar, faria qualquer coisa para emagrecer.”
- “Você emagreceu bastante, agora está bonita.”
- “Não existe metabolismo ruim; existe gente que come demais.”
- “Você está usando medicamento porque não consegue emagrecer sozinho?”
- “Cirurgia ou remédio é o caminho mais fácil.”
Há ainda situações silenciosas: olhares de reprovação em restaurantes, constrangimento ao comprar roupas, piadas em reuniões familiares, cadeiras inadequadas, equipamentos médicos incompatíveis com diferentes corpos e profissionais que atribuem qualquer sintoma ao peso antes mesmo de realizar uma investigação adequada.
Essas experiências se acumulam. Não são apenas desconfortáveis. Podem interferir na relação da pessoa com o próprio corpo, com a alimentação, com a atividade física e com os serviços de saúde.
Do ponto de vista médico: obesidade não é falha de caráter
A obesidade deve ser tratada com a mesma seriedade clínica de outras doenças crônicas.
Isso não significa que alimentação, atividade física, sono e comportamento não sejam importantes. São fundamentais. Mas esses fatores não existem isoladamente e não estão totalmente sob controle voluntário.
O organismo possui sistemas biológicos sofisticados para defender suas reservas de energia. Após uma perda de peso, por exemplo, podem ocorrer aumento da fome, redução da saciedade e adaptações no gasto energético. Genética, medicamentos, privação de sono, alterações hormonais, transtornos alimentares, condições emocionais e o próprio ambiente também podem interferir.
Por isso, o tratamento moderno da obesidade não se resume a mandar a pessoa “comer menos e se movimentar mais”. Ele precisa avaliar causas, fatores de manutenção, complicações, comportamento alimentar, composição corporal, saúde mental, rotina e possibilidades reais de tratamento.
Como explico no artigo Emagrecer não é o mesmo que tratar a obesidade, a redução do número da balança é apenas uma parte do cuidado.
A obesidade também pode causar ou agravar diversas condições, como diabetes tipo 2, apneia obstrutiva do sono, hipertensão, doença cardiovascular, esteatose hepática associada à disfunção metabólica, osteoartrite, infertilidade e alguns tipos de câncer.
Isso não significa que toda pessoa com obesidade desenvolverá todas essas doenças. Significa que a obesidade pode aumentar riscos e precisa ser avaliada de maneira individualizada, antes que suas complicações se instalem ou avancem.
O paradoxo do estigma: a doença exige tratamento, mas o preconceito afasta o paciente
Muitas pessoas adiam a procura por ajuda porque imaginam que serão repreendidas, pesadas sem consentimento, expostas ou responsabilizadas moralmente pela própria condição.
Algumas já viveram consultas em que todos os sintomas foram atribuídos ao peso. Procuraram atendimento por dor, alteração menstrual, cansaço, ansiedade ou outra queixa e ouviram apenas: “Você precisa emagrecer.”
O peso pode realmente participar de muitos problemas de saúde. Entretanto, isso não autoriza o profissional a interromper o raciocínio clínico. Uma pessoa com obesidade também pode apresentar doenças que não são causadas pelo peso e merece investigação adequada.
Quando o paciente percebe que será julgado ou que não será ouvido, ele pode:
- evitar consultas e exames preventivos;
- adiar o início do tratamento da obesidade;
- abandonar o acompanhamento;
- omitir dificuldades alimentares ou episódios de compulsão;
- evitar academias e espaços de atividade física;
- perder a confiança nos profissionais de saúde;
- procurar soluções rápidas, clandestinas ou sem acompanhamento;
- chegar ao atendimento apenas quando as complicações estão mais avançadas.
O consenso internacional publicado na revista Nature Medicine descreve justamente essa relação entre experiências de estigma, pior qualidade do cuidado, menor confiança e adiamento ou evitação dos serviços de saúde.
Portanto, combater o estigma não é apenas uma questão de educação ou gentileza. É uma medida de saúde.
O ponto de vista da psicologia: vergonha não é tratamento
Existe uma crença equivocada de que constranger uma pessoa poderia “motivá-la” a emagrecer. As evidências apontam na direção oposta.
O estigma relacionado ao peso está associado a pior autoestima, ansiedade, sintomas depressivos, insatisfação corporal, isolamento social, sofrimento psicológico e alterações do comportamento alimentar.
Algumas pessoas passam a utilizar a comida como tentativa de aliviar emoções desagradáveis. Outras entram em ciclos de restrição extrema, perda de controle, culpa e novas dietas. Quem já apresenta transtorno de compulsão alimentar pode ter seus sintomas agravados se o tratamento for baseado em julgamento e vergonha.
Em certos casos, a pessoa evita fazer exercício não por falta de interesse, mas porque teme olhares, comentários ou situações constrangedoras. Ela também pode deixar de participar de encontros sociais, evitar relacionamentos e acreditar que só poderá viver plenamente depois de emagrecer.
Nada disso ocorre da mesma forma com todas as pessoas. Existem diferenças individuais importantes, e nem todo sofrimento emocional de uma pessoa com obesidade decorre do peso. Ainda assim, a associação entre estigma e piores desfechos psicológicos aparece de maneira consistente na literatura.
A psicologia tem um papel importante em identificar o estigma internalizado, trabalhar culpa e vergonha, melhorar a relação com o corpo e com a comida, fortalecer estratégias de enfrentamento e tratar transtornos como ansiedade, depressão ou compulsão alimentar quando estiverem presentes.
Isso não significa psicologizar a obesidade nem afirmar que ela é apenas emocional. Significa reconhecer que corpo, mente, comportamento e ambiente interagem — e que um tratamento verdadeiramente completo precisa enxergar a pessoa inteira.
O que dizem as principais organizações de obesidade?
Há uma concordância crescente entre as principais organizações científicas: o estigma prejudica a saúde e deve ser combatido.
A World Obesity Federation define o estigma de peso como discriminação dirigida às pessoas em razão de seu peso e tamanho corporal. A organização recomenda educação profissional, mudança da narrativa pública sobre obesidade e tratamento baseado em respeito e evidências.
A Organização Mundial da Saúde, por meio de seu escritório europeu, alerta que envergonhar pessoas por causa do peso pode aumentar estresse, favorecer padrões alimentares inadequados, reduzir a atividade física e afastar as pessoas dos serviços de saúde.
O consenso internacional para o fim do estigma da obesidade, publicado na Nature Medicine e apoiado por especialistas e organizações científicas de diferentes países, recomenda abandonar a ideia de que obesidade decorre simplesmente de responsabilidade individual. O documento orienta profissionais, universidades, governos, meios de comunicação e instituições a reverem linguagem, imagens, políticas e práticas discriminatórias.
A Obesity Canada recomenda perguntar ao paciente se ele permite conversar sobre peso, compreender os determinantes individuais da doença e estabelecer objetivos de tratamento que façam sentido para aquela pessoa. Também orienta que políticas de saúde não reforcem culpa ou responsabilidade individual excessiva.
A European Association for the Study of Obesity — EASO orienta a adoção da linguagem centrada na pessoa. Em vez de definir alguém pela doença, prefere-se dizer “pessoa com obesidade” ou “pessoa que vive com obesidade”. A preferência individual do paciente, entretanto, deve ser respeitada.
Os Standards of Care in Overweight and Obesity de 2025 recomendam treinamento de toda a equipe de saúde sobre preconceito e estigma de peso, comunicação respeitosa, ambientes fisicamente adequados e acesso a tratamento baseado em evidências.
No Brasil, uma pesquisa eletrônica realizada pela ABESO e pela SBEM, com 3.621 participantes, encontrou relatos de gordofobia em 85,3% dos respondentes. Por ter sido uma pesquisa online com participação voluntária, esse número não deve ser interpretado como estimativa exata de toda a população brasileira. Ainda assim, os relatos mostram como o problema está presente em ambientes familiares, sociais, profissionais e de saúde.
Combater o preconceito não significa ignorar a doença
Existe um ponto importante: reconhecer e combater o estigma não significa negar os riscos clínicos da obesidade.
Também não significa que o médico deva evitar qualquer conversa sobre peso. Significa que essa conversa precisa acontecer no momento adequado, com consentimento, privacidade, respeito e finalidade clínica.
É possível dizer que a obesidade aumenta riscos sem humilhar.
É possível orientar mudanças sem culpar.
É possível indicar tratamento sem reduzir a pessoa ao peso.
É possível acolher o sofrimento sem abandonar a precisão médica.
E é possível desejar uma redução de peso e, ao mesmo tempo, compreender que dignidade, saúde e respeito não podem depender de um número na balança.
O que familiares e amigos podem fazer?
O primeiro passo é interromper comentários sobre corpo, peso, prato ou aparência, especialmente quando a pessoa não pediu opinião.
Em vez de dizer “você precisa emagrecer”, pode ser mais útil perguntar: “Como você está se sentindo?” ou “Existe alguma forma de eu ajudar?”
Também é importante evitar elogiar emagrecimentos sem conhecer o contexto. Uma pessoa pode perder peso por doença, sofrimento emocional, restrição extrema ou uso inadequado de medicamentos. Nem toda perda de peso representa saúde.
O apoio verdadeiro não fiscaliza o prato, não ameaça, não ridiculariza e não transforma o corpo em assunto público. Ele escuta, respeita limites e incentiva a busca por profissionais qualificados quando necessário.
O que os profissionais de saúde precisam mudar?
O cuidado começa pela linguagem, mas não termina nela.
É necessário:
- pedir autorização antes de iniciar uma conversa sobre peso;
- ouvir a história do paciente sem pressupor preguiça ou falta de adesão;
- investigar sintomas adequadamente, sem atribuir tudo à obesidade;
- explicar a doença de maneira clara e sem julgamento;
- utilizar equipamentos e mobiliário compatíveis com diferentes corpos;
- avaliar saúde mental e comportamento alimentar;
- oferecer tratamento baseado em evidências;
- discutir alimentação, exercício, medicamentos ou cirurgia sem moralizar as escolhas;
- estabelecer objetivos compartilhados e clinicamente relevantes;
- reconhecer e revisar os próprios preconceitos, inclusive os inconscientes.
O paciente não precisa de uma bronca. Precisa de diagnóstico, informação, possibilidades terapêuticas e acompanhamento.
O que a pessoa que vive com obesidade pode fazer?
O preconceito sofrido não é culpa do paciente.
Quando possível, é importante procurar uma equipe que compreenda a obesidade como doença crônica e ofereça um ambiente seguro para conversar sobre dificuldades, tentativas anteriores, alimentação, saúde mental e expectativas.
O paciente também pode dizer que não se sente confortável com determinadas palavras, pedir que a pesagem seja realizada com privacidade ou questionar quando percebe que um sintoma não foi adequadamente investigado.
Quando vergonha, tristeza, ansiedade, isolamento, compulsão alimentar ou rejeição ao próprio corpo começam a comprometer a vida, a avaliação psicológica ou psiquiátrica pode fazer parte do tratamento.
Tratar com respeito também é tratar melhor
A obesidade já pode impor uma carga clínica importante. A pessoa não deveria precisar carregar também a culpa, a humilhação e a sensação de que precisa provar o próprio valor antes de receber cuidado.
Respeito não é condescendência. Acolhimento não é omissão. E combater o estigma não significa minimizar os riscos da obesidade.
Significa criar condições para que a pessoa procure ajuda mais cedo, converse com honestidade, permaneça em acompanhamento e receba um tratamento individualizado, tecnicamente adequado e humanamente digno.
Se você vem adiando a busca por ajuda por receio de ser julgado, saiba que esse receio merece ser ouvido. Você tem direito a uma avaliação cuidadosa e a conversar sobre tratamento sem culpa ou humilhação.
Se sentir que precisa de ajuda profissional, conheça o Programa EmagreSER. O acompanhamento pode ser presencial, em Bom Jesus do Itabapoana, ou por telemedicina para pacientes de todo o Brasil, conforme suas necessidades e preferências.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876
Referências
- World Health Organization — Obesity and overweight
- Rubino F. et al. — Joint international consensus statement for ending stigma of obesity
- Weight stigma and bias: Standards of Care in Overweight and Obesity—2025
- World Obesity Federation — Obesity and weight stigma
- Obesity Canada — Reducing weight bias in obesity management, practice and policy
- WHO Europe — Weight bias and obesity stigma
- EASO — Person-first language guide
- ABESO e SBEM — Obesidade e gordofobia: percepções 2022
- American Psychological Association — The burden of weight stigma

