Quando uma pessoa começa um tratamento com medicamentos que atuam na via do GLP-1, a pergunta mais comum costuma ser: quanto peso vou perder?
Mas, na prática, o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 não deveria ser avaliado apenas pela balança. Há outra questão cada vez mais importante: o que acontece quando o tratamento é interrompido?
Um grande estudo publicado em 2026 no BMJ Medicine analisou 333.687 adultos com diabetes tipo 2 e encontrou uma associação entre a interrupção de agonistas do receptor de GLP-1 e perda progressiva de parte do benefício cardiovascular observado com o uso contínuo.
O que o estudo avaliou?
Os pesquisadores utilizaram dados do sistema de saúde dos veteranos dos Estados Unidos e compararam 132.551 pessoas que iniciaram agonistas do receptor de GLP-1 com 201.136 que iniciaram sulfonilureias. Os participantes foram acompanhados por até três anos.
O principal desfecho foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores, definidos no estudo como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) ou morte por qualquer causa.
A metodologia utilizada foi uma target trial emulation, ou emulação de ensaio clínico. Isso significa que os pesquisadores aplicaram métodos estatísticos a dados de vida real tentando reproduzir algumas características de um ensaio clínico randomizado.
É uma estratégia robusta para responder perguntas difíceis de estudar em grandes ensaios, mas existe uma limitação importante: continua sendo um estudo observacional. Portanto, ele identifica associações e não prova, sozinho, que a interrupção do medicamento foi a causa direta dos eventos.
O uso contínuo esteve associado a menor risco cardiovascular
Ao longo de três anos, o uso contínuo de agonistas de GLP-1 esteve associado a menor incidência de eventos cardiovasculares maiores quando comparado ao uso de sulfonilureias.
Segundo os autores, o benefício cardiovascular foi se acumulando ao longo do tempo entre aqueles que permaneceram em tratamento.
Isso reforça um conceito importante: os efeitos desses medicamentos podem envolver muito mais do que redução do peso corporal. Em determinados pacientes, especialmente aqueles com diabetes tipo 2 e maior risco cardiovascular, o tratamento pode fazer parte de uma estratégia metabólica mais ampla.
O que aconteceu quando o tratamento foi interrompido?
Este foi o ponto mais interessante do trabalho.
Comparando pessoas que permaneceram continuamente em tratamento com aquelas que tiveram períodos sem a medicação, os pesquisadores observaram uma relação progressiva entre o tempo de interrupção e o risco de eventos cardiovasculares.
- Cerca de seis meses de interrupção: associação com aumento relativo de aproximadamente 4% no risco em comparação ao tratamento contínuo.
- Um ano de interrupção: associação com aumento relativo de aproximadamente 14%.
- Dois anos de interrupção: associação com aumento relativo de aproximadamente 22%.
Também foram avaliados pacientes que interromperam e depois retomaram o tratamento. Mesmo nesses casos, períodos sem a medicação estiveram associados à perda de parte da proteção observada entre usuários contínuos.
Esses números significam que quem para o medicamento terá um infarto?
Não.
Esse é um ponto fundamental para interpretar o estudo corretamente.
Quando falamos em aumento relativo de 22%, isso não significa que uma pessoa tenha 22% de probabilidade de sofrer um infarto por interromper a medicação. O número compara a incidência de eventos entre grupos dentro da população estudada.
O risco absoluto de cada pessoa depende de vários fatores: idade, presença de diabetes, pressão arterial, colesterol, tabagismo, doença cardiovascular prévia, função renal, peso corporal e outros componentes clínicos.
Por que o tratamento da obesidade não deve ser pensado apenas por alguns meses?
Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como se fosse um problema temporário: a pessoa fazia uma dieta, perdia peso e o tratamento terminava.
Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. Após a perda de peso, o próprio organismo pode ativar mecanismos que favorecem a recuperação do peso perdido.
Entre eles estão:
- aumento da fome;
- redução da saciedade;
- alterações nos sinais hormonais relacionados ao apetite;
- redução do gasto energético;
- maior vulnerabilidade ao reganho de peso.
Por isso, atingir determinado número na balança não significa que a doença deixou de existir.
Esse é um dos motivos pelos quais o tratamento moderno da obesidade precisa incluir uma estratégia de manutenção, com acompanhamento clínico, alimentação adequada, atividade física, preservação de massa muscular, sono e manejo do comportamento alimentar.
Isso significa que todo paciente precisará usar GLP-1 para sempre?
Não necessariamente.
Não existe uma regra que determine que todas as pessoas devam utilizar a mesma medicação pela mesma duração.
A decisão depende de fatores como:
- grau de obesidade;
- presença de diabetes tipo 2;
- risco cardiovascular;
- resposta clínica;
- efeitos adversos;
- composição corporal;
- comportamento alimentar;
- doenças associadas;
- preferências do paciente;
- capacidade de manutenção do peso.
Em alguns casos, o tratamento farmacológico poderá ser prolongado. Em outros, poderá haver redução de dose, troca de medicamento ou interrupção.
O ponto principal é que a retirada não deveria ocorrer apenas porque a pessoa alcançou um determinado peso. Ela precisa fazer parte de um planejamento individualizado.
O que deve ser avaliado antes de interromper uma medicação?
Quando existe indicação de reduzir, trocar ou suspender um medicamento, algumas perguntas são úteis:
- Como está a trajetória do peso nos últimos meses?
- Como está a composição corporal?
- A massa muscular foi preservada?
- A fome e a saciedade continuam controladas?
- Existe compulsão ou perda de controle alimentar?
- Como estão glicemia, pressão arterial e perfil lipídico?
- A pessoa pratica atividade física regularmente?
- Como está o sono?
- Existe uma estratégia clara para manutenção?
- Qual será a conduta se o peso ou outros marcadores começarem a piorar?
O objetivo não é simplesmente “tirar a caneta”. O objetivo é preservar os benefícios metabólicos conquistados durante o tratamento.
O estudo não pode ser aplicado igualmente a todas as pessoas
Também é importante reconhecer quem participou da pesquisa.
A população era composta por adultos com diabetes tipo 2 atendidos no sistema de saúde dos veteranos dos Estados Unidos, predominantemente homens mais velhos.
Por isso, não é correto assumir que a magnitude do risco observada seja exatamente a mesma em:
- mulheres jovens;
- pessoas sem diabetes;
- pacientes utilizando medicamentos exclusivamente para tratamento da obesidade;
- indivíduos com baixo risco cardiovascular.
Novos estudos são necessários para responder essas questões de forma mais específica.
O que esse estudo muda na prática?
Ele reforça a necessidade de enxergar obesidade, diabetes e risco cardiovascular como condições que frequentemente exigem acompanhamento de longo prazo.
O tratamento não deve ser organizado apenas em torno da pergunta “quantos quilos ainda faltam?”. Perguntas mais úteis incluem:
- Minha saúde metabólica melhorou?
- Minha composição corporal está adequada?
- Minha massa muscular está sendo preservada?
- Minha fome está controlada?
- Consigo manter meus hábitos no dia a dia?
- Como está meu risco cardiovascular?
- Qual é meu plano de manutenção?
Não interrompa o tratamento por conta própria
Os resultados desse estudo não significam que medicamentos que atuam na via do GLP-1 nunca possam ser interrompidos.
Significam que iniciar, modificar ou suspender um tratamento precisa fazer parte de uma estratégia médica individualizada.
Se você está em tratamento para obesidade ou diabetes e pensa em reduzir ou interromper sua medicação, converse com o médico que acompanha seu caso antes de fazer mudanças.
Para saber mais sobre o tratamento clínico da obesidade, veja também minha página sobre emagrecimento e obesidade, conheça o Programa EmagreSER ou consulte informações sobre consulta online com endocrinologista e nutrólogo.
Perguntas frequentes
Parar um medicamento GLP-1 pode levar ao reganho de peso?
Sim, parte dos pacientes recupera peso após a interrupção. Isso acontece porque os mecanismos biológicos que favorecem a obesidade podem voltar a atuar quando o efeito farmacológico desaparece. A intensidade do reganho varia entre indivíduos.
Chegar ao “peso ideal” é motivo suficiente para suspender?
Não. Peso corporal é apenas uma das variáveis. A decisão deve considerar risco de reganho, composição corporal, doenças associadas, comportamento alimentar, saúde metabólica e estratégia de manutenção.
O risco cardiovascular aumenta imediatamente após a suspensão?
O estudo avaliou o tratamento em intervalos de meses e encontrou aumento progressivo do risco associado a períodos maiores de interrupção. Ele não permite afirmar que o risco aumente de forma imediata em cada indivíduo.
Quem usa esses medicamentos apenas para obesidade tem o mesmo risco?
Ainda não sabemos. O estudo foi realizado em pessoas com diabetes tipo 2, predominantemente homens mais velhos. Não é adequado extrapolar a mesma magnitude de risco para todas as pessoas com obesidade sem diabetes.
Conclusão
Os medicamentos modernos transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes, mas o grande desafio não é apenas iniciar uma terapia eficaz. É construir uma estratégia capaz de sustentar seus benefícios.
O estudo publicado no BMJ Medicine sugere que, em adultos com diabetes tipo 2, períodos de interrupção de agonistas do receptor de GLP-1 estão associados à perda progressiva de parte da proteção cardiovascular observada com o tratamento contínuo.
A mensagem prática é simples: obesidade e doenças metabólicas precisam ser tratadas com visão de longo prazo. Emagrecer é uma etapa. Manter saúde metabólica, composição corporal e redução de risco ao longo dos anos é o objetivo maior.
Referência científica
Xie Y, Choi T, Al-Aly Z. Glucagon-like peptide 1 receptor agonist discontinuation and risks of major adverse cardiovascular events in adults with type 2 diabetes: target trial emulation. BMJ Medicine. 2026;5:e002150. DOI: 10.1136/bmjmed-2025-002150. Acessar o artigo científico.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologista e Metabologista | Nutrólogo
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 — Endocrinologia e Metabologia
RQE 24876 — Nutrologia
Bom Jesus do Itabapoana – RJ | Telemedicina em todo o Brasil

