As vitaminas participam de centenas de processos essenciais no organismo. Elas ajudam na produção de energia, formação de células sanguíneas, funcionamento do sistema nervoso, imunidade, saúde óssea, visão, coagulação e proteção celular.
Mas existe um ponto importante: vitaminas não funcionam como estimulantes universais. Quando existe deficiência, corrigi-la pode melhorar sintomas e reduzir riscos. Quando os níveis já estão adequados, aumentar a dose nem sempre traz benefício — e, em alguns casos, pode causar efeitos adversos.
Por isso, a pergunta mais útil não é “qual vitamina devo tomar?”, mas sim: qual vitamina pode estar faltando, por que ela está baixa e existe indicação real de reposição?
Vitamina A: visão, imunidade e integridade dos tecidos
A vitamina A é lipossolúvel e participa da visão, da função imunológica, da reprodução, do crescimento e do funcionamento de órgãos como coração e pulmões. Ela pode ser obtida diretamente de alimentos de origem animal ou a partir de carotenoides presentes em vegetais amarelos, alaranjados e verde-escuros.
Principais fontes: fígado, ovos, laticínios, cenoura, abóbora, manga, espinafre e outros vegetais verde-escuros.
A deficiência pode comprometer a visão e a imunidade. Por outro lado, doses excessivas de vitamina A pré-formada podem ser tóxicas. Isso é especialmente relevante em gestantes e em pessoas que utilizam determinados medicamentos derivados da vitamina A.
Complexo B: metabolismo, sangue e sistema nervoso
As vitaminas do complexo B atuam principalmente como cofatores em reações metabólicas. Em termos simples, ajudam o organismo a utilizar adequadamente carboidratos, proteínas e gorduras e participam da formação e manutenção de diferentes tecidos.
Vitamina B1 — tiamina
A tiamina participa da conversão dos alimentos em energia e é importante para o funcionamento celular. Deficiência importante pode ocorrer em situações de alimentação muito inadequada, alcoolismo, cirurgias bariátricas e algumas condições clínicas específicas.
Vitamina B6 — piridoxina
A vitamina B6 participa de mais de uma centena de reações enzimáticas relacionadas ao metabolismo, além de ter papel no sistema nervoso e na imunidade.
O excesso também merece atenção: doses elevadas de B6 utilizadas por longos períodos podem causar lesão neurológica periférica, com formigamento, alteração de sensibilidade e dificuldade de coordenação.
Vitamina B9 — folato
O folato é necessário para produção de DNA e divisão celular. Sua importância é especialmente conhecida na gestação, porque a ingestão adequada de ácido fólico antes e no início da gravidez reduz o risco de defeitos do tubo neural.
Folhas verdes, feijões, lentilhas, abacate e alimentos fortificados são boas fontes.
Vitamina B12 — cobalamina
A B12 é fundamental para formação das células sanguíneas, funcionamento do sistema nervoso e produção de DNA.
A deficiência pode causar anemia, cansaço, alterações de memória, formigamentos e lesões neurológicas. Pessoas veganas, idosos, pacientes submetidos a cirurgia bariátrica e indivíduos com doenças que prejudicam a absorção merecem atenção especial.
Outro grupo importante são pacientes em uso prolongado de metformina, porque esse medicamento pode reduzir a absorção e os níveis sanguíneos de vitamina B12.
Também é comum ouvir que B12 “dá energia”. Isso precisa ser interpretado corretamente. Repor uma deficiência pode melhorar sintomas relacionados à carência, mas suplementar B12 em alguém com níveis adequados não demonstrou melhorar energia ou desempenho físico de forma relevante.
Vitamina C: antioxidante, colágeno e absorção de ferro
A vitamina C atua como antioxidante e participa da formação de colágeno, cicatrização e absorção do ferro de origem vegetal. Frutas cítricas, acerola, goiaba, kiwi, morango, pimentão e brócolis são fontes importantes.
Ela ganhou fama como proteção contra resfriados, mas a evidência é mais modesta do que muitas propagandas sugerem. Em geral, suplementação de vitamina C não impede que a maioria das pessoas tenha resfriado, embora o uso regular possa reduzir discretamente a duração ou a intensidade dos sintomas em alguns indivíduos.
Doses muito elevadas podem causar náuseas, diarreia e cólicas e exigem cautela em situações específicas, como sobrecarga de ferro.
Vitamina D: ossos, músculos e metabolismo mineral
A vitamina D ajuda o organismo a absorver cálcio e é essencial para a saúde óssea. Também participa da função muscular, nervosa e imunológica.
Poucos alimentos fornecem quantidades relevantes naturalmente. Peixes gordurosos, gema de ovo e alguns alimentos fortificados contribuem, enquanto a exposição solar participa da produção cutânea da vitamina.
A deficiência pode favorecer osteomalácia e contribuir para perda de saúde óssea e maior risco de osteopenia e osteoporose. Pessoas com pouca exposição solar, idosos, indivíduos com obesidade, doenças de má absorção e pacientes submetidos a determinadas cirurgias podem apresentar maior risco de níveis inadequados.
Um ponto importante: vitamina D não é medicamento para emagrecer. Estudos clínicos não demonstram que suplementar vitamina D, por si só, produza perda de peso relevante. Também não devemos usar doses elevadas indiscriminadamente apenas porque um exame está abaixo de um valor considerado “ideal” em determinada propaganda.
A dose deve considerar nível sanguíneo, contexto clínico, idade, saúde óssea, alimentação e risco de excesso.
Vitamina E: proteção antioxidante
A vitamina E é lipossolúvel e atua como antioxidante, ajudando a proteger as células contra danos oxidativos. Também participa da função imunológica e de processos celulares.
Principais fontes: amêndoas, sementes, óleos vegetais, amendoim, espinafre e brócolis.
Deficiência verdadeira é rara em pessoas saudáveis e costuma estar relacionada a doenças que prejudicam a absorção de gorduras.
Isso também significa que tomar doses muito altas de vitamina E sem indicação não deve ser confundido com uma estratégia de prevenção geral de doenças.
Vitamina K: coagulação e saúde óssea
A vitamina K é essencial para a coagulação sanguínea e participa de proteínas envolvidas na saúde óssea.
Vegetais verde-escuros, como couve, espinafre, brócolis e outras folhas, são fontes importantes.
Em pacientes que utilizam varfarina, grandes variações na ingestão de vitamina K podem interferir no efeito do anticoagulante. O objetivo geralmente não é eliminar esses alimentos, mas manter uma ingestão relativamente estável e acompanhar o tratamento adequadamente.
Quem realmente pode precisar de suplementação?
Suplementos têm utilidade quando existe uma necessidade definida. Alguns exemplos frequentes incluem:
- deficiência documentada em exames ou fortemente suspeita pelo contexto clínico;
- gestação e planejamento gestacional, especialmente em relação ao ácido fólico;
- dietas com exclusões importantes, como veganismo e risco de deficiência de B12;
- cirurgia bariátrica;
- doenças intestinais ou outras condições que prejudicam absorção;
- uso de medicamentos que interferem na absorção ou metabolismo de determinados nutrientes;
- idosos com risco nutricional;
- situações de baixa ingestão alimentar prolongada.
E durante o emagrecimento?
Em um tratamento para obesidade, principalmente quando há redução importante da ingestão de alimentos, vale observar a qualidade da alimentação e o risco de inadequação de micronutrientes.
Isso não significa que todas as pessoas em tratamento com semaglutida ou tirzepatida precisem de um polivitamínico.
A avaliação deve considerar o que a pessoa realmente come, velocidade de perda de peso, presença de náuseas ou vômitos, uso de outros medicamentos, exames laboratoriais, histórico de cirurgia bariátrica e eventuais sinais de deficiência.
A prioridade continua sendo uma alimentação nutricionalmente adequada. Quando há necessidade de reposição, o suplemento entra como ferramenta — não como substituto de uma dieta equilibrada.
Mais vitamina não significa mais saúde
Esse talvez seja o principal ponto do artigo.
Vitaminas são indispensáveis, mas isso não significa que doses elevadas produzam benefícios adicionais.
Algumas são hidrossolúveis e parte do excesso pode ser eliminada na urina. Outras são lipossolúveis e podem se acumular no organismo. Mesmo vitaminas hidrossolúveis podem causar toxicidade em doses elevadas, como ocorre com a vitamina B6.
Além disso, suplementos podem interferir com medicamentos e alterar exames laboratoriais.
Quando vale investigar vitaminas?
Nem todo cansaço é falta de vitamina, e pedir dezenas de exames sem uma hipótese clínica também pode gerar resultados difíceis de interpretar.
A investigação costuma ser mais útil quando existem sintomas, fatores de risco, alimentação restritiva, doenças de absorção, uso de medicamentos relacionados à deficiência ou situações de maior demanda.
Entre as vitaminas frequentemente avaliadas na prática clínica estão B12, folato e vitamina D, dependendo do contexto.
Perguntas frequentes
Polivitamínico é necessário para todo mundo?
Não. Muitas pessoas conseguem atingir suas necessidades por meio de alimentação adequada. Suplementos podem ser úteis em situações específicas, mas não são obrigatórios para todos.
Vitaminas ajudam a emagrecer?
Não diretamente. Corrigir uma deficiência é importante para a saúde e pode melhorar sintomas relacionados à carência, mas vitaminas não substituem tratamento da obesidade nem produzem, isoladamente, perda de peso clinicamente relevante.
B12 dá energia?
Quando existe deficiência, sua reposição pode melhorar anemia, fraqueza e outros sintomas. Em pessoas com níveis adequados, suplementar B12 não demonstrou aumentar energia ou desempenho.
Vitamina D baixa precisa sempre de dose alta?
Não. A conduta depende do valor encontrado, contexto clínico, risco ósseo, idade e outras características individuais.
Posso tomar vitaminas por conta própria?
Doses baixas presentes em alimentos fortificados ou multivitamínicos comuns costumam ter menor risco, mas o uso crônico de doses elevadas merece avaliação profissional, principalmente em pessoas que usam medicamentos ou têm doenças crônicas.
Conclusão
Vitaminas são fundamentais para o funcionamento do organismo, mas devem ser vistas como nutrientes essenciais, não como soluções universais para cansaço, imunidade, emagrecimento ou prevenção de doenças.
Uma alimentação variada continua sendo a principal fonte para a maioria das pessoas. A suplementação tem seu melhor papel quando existe deficiência, aumento de necessidade, restrição alimentar, alteração de absorção ou outra indicação clínica bem definida.
O objetivo não é tomar o maior número de cápsulas possível. É oferecer ao organismo o que ele realmente precisa, na quantidade adequada.
Fontes
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin A and Carotenoids. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin B6. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin B12. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Folate. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin C. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin D. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin E. Acessar.
NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin K. Acessar.
Para saber mais, veja também minhas páginas sobre Nutrologia, tratamento do emagrecimento e consulta online.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

