Em 29 de setembro de 2026, um novo estudo de fase 3 com retatrutida foi publicado no The Lancet e apresentado nesta semana no congresso da European Association for the Study of Diabetes (EASD), em Milão. O resultado ajuda a entender por que essa molécula vem sendo acompanhada tão de perto por quem trabalha com obesidade e saúde metabólica.
No estudo TRIUMPH-2, pessoas com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2 que receberam retatrutida tiveram reduções importantes de peso, hemoglobina glicada e outros marcadores cardiometabólicos ao longo de 80 semanas. Na análise mais próxima da prática real, que considera interrupções e outras intercorrências durante o tratamento, a perda média de peso chegou a 18,8% com 12 mg, contra 5,1% com placebo. Em uma análise de eficácia que estima o efeito caso os participantes permaneçam no tratamento conforme planejado, a redução média chegou a 20,8%.
São números que chamam atenção, especialmente porque pessoas com diabetes tipo 2 costumam perder menos peso com medicamentos antiobesidade do que pessoas sem diabetes. Mas a leitura correta não é “chegou uma caneta milagrosa”. A retatrutida continua experimental, ainda não está aprovada para uso e seus resultados precisam ser interpretados dentro do desenho do estudo.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma molécula injetável de aplicação semanal que ativa três receptores hormonais: GIP, GLP-1 e glucagon.
Essa combinação é o principal motivo de tanto interesse. A semaglutida atua predominantemente sobre o receptor de GLP-1. A tirzepatida combina GIP e GLP-1. A retatrutida adiciona o receptor de glucagon a esse conjunto, criando um agonista triplo.
O GLP-1 participa da regulação da saciedade, do esvaziamento gástrico e do controle glicêmico. O GIP também atua na resposta metabólica aos nutrientes e na secreção de insulina. Já o agonismo do receptor de glucagon pode contribuir para alterações no gasto energético e no metabolismo de substratos. A hipótese é que a ação coordenada nessas três vias produza um efeito metabólico mais amplo do que o obtido com um único receptor.
É nesse sentido que considero a retatrutida uma molécula potencialmente disruptiva: não por representar uma “cura” da obesidade, mas porque pode ampliar de forma importante o que conseguimos alcançar farmacologicamente em uma doença crônica que, por décadas, teve opções terapêuticas muito limitadas.
Como foi o novo estudo TRIUMPH-2?
O TRIUMPH-2 foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Foram incluídos 1.152 adultos com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, distribuídos entre quatro grupos: retatrutida 4 mg, 9 mg, 12 mg ou placebo.
O tratamento durou 80 semanas. O peso médio inicial era de aproximadamente 106 kg e o IMC médio de 38,2 kg/m². A hemoglobina glicada média no início era de 7,7%.
Na análise denominada treatment-regimen estimand, que incorpora o que aconteceu com os participantes mesmo diante de interrupções do tratamento, a redução média de peso foi de aproximadamente 11,9% com 4 mg, 16,8% com 9 mg e 18,8% com 12 mg, contra 5,1% com placebo.
Na análise de eficácia divulgada pelo fabricante — que estima o efeito caso os participantes permanecessem em tratamento durante as 80 semanas, sem iniciar tratamentos proibidos para controle de peso — as reduções médias chegaram a 12,7%, 19,1% e 20,8%, respectivamente, versus 4,0% com placebo.
Essa diferença entre 18,8% e 20,8% não é contradição. São duas maneiras estatísticas diferentes de responder perguntas diferentes. Para o leitor, o ponto central é: a magnitude de perda de peso permaneceu elevada mesmo quando se considera uma análise mais próxima das intercorrências que ocorrem em um tratamento real.
Não foi apenas perda de peso
A retatrutida também reduziu de maneira importante a hemoglobina glicada. Nas doses de 9 e 12 mg, a queda média ficou em torno de 1,5 a 1,6 ponto percentual na análise de eficácia. Uma proporção relevante dos participantes atingiu níveis de glicemia próximos da faixa considerada normal.
Também foram observadas reduções de pressão arterial sistólica, triglicerídeos, colesterol não-HDL, circunferência abdominal e proteína C-reativa ultrassensível. Esses são marcadores importantes, mas precisam ser colocados em perspectiva: melhorar fatores de risco não equivale automaticamente a provar redução de infarto, AVC, insuficiência renal ou mortalidade.
Para responder esse tipo de pergunta, são necessários estudos de desfechos cardiovasculares e renais. Esses estudos fazem parte do programa de desenvolvimento da retatrutida e serão fundamentais para definir o real impacto clínico da molécula no longo prazo.
Por que o resultado é tão relevante para a obesidade?
Nos últimos anos, a farmacoterapia da obesidade passou por uma mudança profunda. Os agonistas de GLP-1 mostraram que era possível obter perdas de peso clinicamente relevantes com medicamentos. A tirzepatida, combinando GIP e GLP-1, elevou esse patamar. Agora, a retatrutida testa a hipótese de que acrescentar uma terceira via hormonal pode ampliar ainda mais a resposta.
Em pessoas sem diabetes, o estudo TRIUMPH-1 já havia mostrado reduções médias de peso de grande magnitude, chegando a cerca de 25% em 80 semanas na análise que considera o regime de tratamento, e próximas de 28% na análise de eficácia com a dose mais alta. O TRIUMPH-2 acrescenta uma informação importante: mesmo em pessoas com diabetes tipo 2 — grupo em que a perda de peso costuma ser menor — o efeito permaneceu expressivo.
Isso pode representar um passo importante para uma medicina em que o tratamento da obesidade seja cada vez menos baseado em “quanto peso a pessoa consegue perder” e mais em qual intensidade de tratamento é necessária para modificar a doença e suas complicações.
Já escrevi aqui sobre como os agonistas de GLP-1 abriram uma nova era na medicina. A retatrutida pode ser um dos próximos capítulos dessa transformação.
Isso significa que ela é melhor que Mounjaro ou Ozempic?
Ainda não podemos afirmar isso de forma direta.
Comparar percentuais de estudos diferentes parece simples, mas pode levar a conclusões erradas. População, duração, IMC inicial, presença de diabetes, estratégia de escalonamento de dose, adesão, critérios de inclusão e método estatístico podem mudar o resultado.
O TRIUMPH-2 comparou retatrutida com placebo, e não diretamente com tirzepatida ou semaglutida. Portanto, os resultados mostram que a retatrutida tem alta eficácia dentro daquele ensaio; não estabelecem, sozinhos, uma hierarquia definitiva entre os medicamentos.
Esse cuidado é especialmente importante porque a resposta à semaglutida e à tirzepatida já varia bastante entre pacientes. A tendência futura provavelmente será menos “qual é o remédio mais forte?” e mais “qual estratégia tem melhor relação entre benefício, tolerabilidade e risco para este paciente?”.
E os efeitos adversos?
Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, como já ocorre com outras terapias baseadas em incretinas. Na dose de 12 mg, foram relatados diarreia em 33,6% dos participantes, náusea em 28,0%, constipação em 16,8% e vômitos em 15,7%.
Também apareceu um sinal de disestesia, uma alteração de sensibilidade da pele que pode ser descrita como formigamento, ardor ou sensibilidade anormal. No grupo de 12 mg, ocorreu em 7,3%, comparado a 0,7% com placebo. A maioria dos eventos relatados foi leve a moderada.
A interrupção do tratamento por eventos adversos ocorreu em 3,8% no grupo de 4 mg, 11,6% no de 9 mg e 7,7% no de 12 mg, versus 4,9% com placebo.
Esses números são relevantes porque mostram que eficácia e tolerabilidade precisam ser avaliadas juntas. Um medicamento não se torna automaticamente melhor apenas por produzir maior redução média de peso.
Retatrutida ainda não está aprovada
Apesar do entusiasmo científico, a retatrutida continua sendo um medicamento experimental. A Anvisa já alertou que ela não possui registro e que produtos vendidos com esse nome por canais irregulares não têm garantia de composição, pureza, dose, armazenamento ou mesmo de conter a substância declarada.
Isso significa que não existe, neste momento, uma “retatrutida manipulada” ou “retatrutida importada” legitimamente disponível para tratamento clínico rotineiro no Brasil.
O próprio fabricante informa que pretende submeter o pedido regulatório nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2027. Até lá, os dados continuam sendo avaliados e o programa clínico segue em desenvolvimento.
O que esse estudo muda na prática médica?
Hoje, ainda não muda a prescrição, porque o medicamento não está aprovado. Mas muda a perspectiva.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e biologicamente regulada. Tratá-la não pode ser reduzido a “comer menos e se mexer mais”. Alimentação, atividade física, sono, saúde mental, ambiente e comportamento continuam fundamentais, mas o avanço farmacológico mostra que a biologia do peso pode ser tratada de forma cada vez mais específica.
É também por isso que emagrecer não é o mesmo que tratar a obesidade. O objetivo não é perseguir um número na balança, e sim reduzir risco, preservar massa muscular, tratar comorbidades e construir uma estratégia sustentável de longo prazo.
Se a retatrutida confirmar segurança e benefícios clínicos relevantes nos estudos em andamento, poderá ampliar ainda mais o arsenal terapêutico. Não será o fim da obesidade nem substituirá automaticamente as opções já existentes, mas pode representar mais um grande passo em direção a tratamentos mais potentes e individualizados.
Referências
- Bellido V, le Roux CW, Ekinci EI, et al. Retatrutide in adults with obesity and type 2 diabetes (TRIUMPH-2): a double-blind, parallel-group, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. The Lancet. 2026. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)01861-1.
- Eli Lilly and Company. Lilly’s triple agonist, retatrutide, delivered substantial weight loss and A1C reduction, underscoring its potential promise for people with obesity and type 2 diabetes. 29 set 2026.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Retatrutida ainda não está aprovada para uso em nenhum lugar do mundo. 24 jul 2026.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

