Agonistas de GLP-1: por que abriram uma nova era na medicina — e por que o Mounjaro virou moda

Durante décadas, o tratamento medicamentoso da obesidade ocupou um espaço relativamente pequeno dentro da medicina. Havia opções úteis, mas com eficácia limitada para muitos pacientes, tolerabilidade variável e pouca capacidade de modificar, ao mesmo tempo, diferentes complicações metabólicas. A chegada dos medicamentos baseados em GLP-1 mudou essa história.

Quando falo em “mudança disruptiva”, não estou usando a palavra como slogan. Refiro-me a uma mudança de paradigma: medicamentos inicialmente desenvolvidos para o diabetes passaram a influenciar o tratamento da obesidade, da doença cardiovascular, da doença renal, da apneia obstrutiva do sono e da doença hepática metabólica. Hoje, a discussão não é mais apenas “quanto peso a pessoa perdeu?”, mas quais riscos e complicações foram modificados ao tratar a obesidade de forma mais eficaz.

É nesse cenário que nomes como liraglutida (Saxenda® e Victoza®), semaglutida (Ozempic®, Wegovy® e Rybelsus®), dulaglutida (Trulicity®) e tirzepatida (Mounjaro®) passaram a fazer parte do vocabulário médico — e também das redes sociais. Tecnicamente, porém, há uma diferença importante: a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro®, não é apenas um agonista de GLP-1; ela atua nos receptores de GIP e GLP-1.

Como os agonistas de GLP-1 saíram do diabetes e chegaram ao centro da medicina metabólica

Os agonistas do receptor de GLP-1 nasceram da fisiologia das incretinas, hormônios liberados pelo intestino após a alimentação. Eles aumentam a secreção de insulina de forma dependente da glicose, reduzem a secreção de glucagon, interferem no esvaziamento gástrico e atuam no sistema nervoso central, modulando fome e saciedade.

As primeiras gerações, como a exenatida (Byetta®/Bydureon®) e a liraglutida (Victoza®/Saxenda®), já mostravam que era possível melhorar o controle glicêmico e reduzir peso. A semaglutida (Ozempic®/Wegovy®/Rybelsus®) aumentou a potência desse conceito. Depois, a tirzepatida (Mounjaro®), combinando ação sobre GIP e GLP-1, elevou ainda mais a expectativa sobre o potencial farmacológico para obesidade e doenças metabólicas.

Uma revisão publicada em 2026 no New England Journal of Medicine resume bem esse avanço: além de reduzir glicemia e peso corporal, estudos randomizados de grande porte já demonstraram benefícios cardiovasculares e renais com medicamentos dessa família. Uma revisão da Nature Medicine, também de 2026, descreve a expansão das terapias baseadas em GLP-1 para diferentes doenças associadas à obesidade e ao risco cardiometabólico.

Esse movimento reforça uma mensagem que considero essencial: emagrecer não é exatamente a mesma coisa que tratar a obesidade. Quando tratamos obesidade como doença crônica, o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a incluir pressão arterial, glicemia, função renal, risco cardiovascular, sono, fígado, mobilidade e qualidade de vida.

Por que essa classe pode ser chamada de disruptiva?

1. Porque mudou a eficácia esperada do tratamento clínico da obesidade

Por muitos anos, perdas de peso consideradas muito expressivas eram mais frequentemente associadas à cirurgia bariátrica. A nova geração de medicamentos mudou essa referência. Ensaios clínicos com semaglutida (Wegovy®) e, principalmente, com tirzepatida (Mounjaro®) passaram a mostrar reduções médias de peso que antes eram incomuns com farmacoterapia.

No estudo SURMOUNT-5, publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, a tirzepatida apresentou maior redução média de peso que a semaglutida em adultos com obesidade sem diabetes. Isso ajuda a explicar parte do interesse em Mounjaro®, mas não significa que exista um medicamento universalmente “melhor” para todas as pessoas. A resposta é individual, como já expliquei no artigo sobre por que semaglutida e tirzepatida não emagrecem todo mundo da mesma forma.

2. Porque a discussão saiu da balança

O estudo SELECT mostrou que a semaglutida (Wegovy®), em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, mas sem diabetes, reduziu o risco de um conjunto de eventos cardiovasculares maiores. Posteriormente, essa evidência passou a repercutir também em indicações regulatórias.

Em 2026, a Anvisa ampliou a indicação do Wegovy® (semaglutida) no Brasil para redução do risco de eventos cardiovasculares adversos maiores em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso. No mesmo ano, a agência também ampliou o uso do Ozempic® (semaglutida) em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

No fígado, o estudo ESSENCE demonstrou melhora histológica em pacientes com MASH e fibrose moderada a avançada tratados com semaglutida (Wegovy®). No Brasil, a Anvisa aprovou essa indicação para Wegovy® no fim de 2025.

Na apneia obstrutiva do sono, a tirzepatida também ganhou destaque depois dos estudos SURMOUNT-OSA. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou a tirzepatida, comercializada para obesidade como Zepbound®, para determinados adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono. No Brasil, o Mounjaro® (tirzepatida) recebeu em 2025 indicação para controle crônico do peso em adultos que atendam aos critérios regulatórios.

É por isso que a conversa mudou. Esses medicamentos não são simplesmente “injeções para emagrecer”. Eles fazem parte de uma nova estratégia de tratamento da doença adiposa e de suas complicações.

3. Porque inauguraram uma plataforma, e não um único medicamento

A evolução não parou em Ozempic®, Wegovy® ou Mounjaro®. Hoje há estudos com moléculas que combinam GLP-1 com GIP, glucagon, amilina e outros alvos metabólicos. A lógica é semelhante ao que aconteceu em outras áreas da medicina: primeiro surge uma prova de conceito; depois, uma família inteira de tratamentos passa a ser desenvolvida.

Um exemplo é a enicepatida, uma molécula experimental de ação em GLP-1 e GIP, que ainda está em investigação. Retatrutida, combinações com amilina e novas formulações orais também fazem parte desse horizonte. Nem todas chegarão ao mercado, e resultados preliminares não devem ser tratados como aprovação ou benefício estabelecido.

Então por que o Mounjaro virou “moda”?

A palavra “moda” precisa ser usada com cuidado. Mounjaro® não é moda no sentido de ser um produto sem evidência que desaparecerá quando a atenção diminuir. A tirzepatida tem ensaios clínicos robustos e indicações aprovadas. A “moda” está no fenômeno social criado ao redor da marca.

Existem pelo menos quatro razões para isso.

Primeiro: a eficácia chama atenção

Quando uma medicação produz, em média, reduções de peso mais expressivas que opções anteriores, ela naturalmente desperta interesse. A comparação direta entre tirzepatida e semaglutida no SURMOUNT-5 intensificou ainda mais essa percepção.

Segundo: Mounjaro virou um nome mais fácil de lembrar do que a própria classe

Algo semelhante já havia acontecido com Ozempic®. Muitas pessoas passaram a usar “Ozempic” quase como sinônimo de medicamento para emagrecer. Agora, Mounjaro® ocupa parte desse espaço. Isso é comum quando uma marca atravessa o ambiente médico e passa para o vocabulário popular.

Um estudo publicado no JAMA Network Open mostrou um crescimento muito rápido das prescrições e das buscas online por medicamentos dessa área. Nos dados norte-americanos analisados até fevereiro de 2024, as prescrições mensais de Mounjaro® cresceram de cerca de 10 mil, em junho de 2022, para aproximadamente 1,2 milhão. A correlação entre volume de buscas e prescrições para Mounjaro® foi de 0,97. Esses números são dos Estados Unidos e não devem ser extrapolados diretamente para o Brasil, mas ajudam a mostrar como o interesse público e a adoção clínica caminharam juntos.

Terceiro: as redes sociais simplificaram uma história que é complexa

“Uma caneta que emagrece” é uma narrativa fácil de viralizar. Já explicar obesidade como doença crônica, neuroendócrina, ambiental e comportamental é muito mais difícil. O problema é que essa simplificação apaga elementos fundamentais: indicação, titulação, efeitos adversos, contraindicações, preservação de massa muscular, alimentação, atividade física, sono e manutenção de longo prazo.

É por isso que o tratamento não deveria começar pela pergunta “qual caneta eu quero usar?”, mas por “qual problema estou tentando tratar e qual estratégia oferece melhor relação entre benefício e risco para esta pessoa?”.

Quarto: existe um componente de desejo e pertencimento

Quando amigos, celebridades, influenciadores e conhecidos passam a falar da mesma medicação, ela deixa de ser percebida apenas como tratamento e passa a representar acesso a uma transformação desejada. Isso pode aumentar procura, automedicação e expectativas irreais.

No Brasil, a Anvisa tornou mais rigorosa a dispensação dos agonistas de GLP-1 e medicamentos relacionados, com retenção de receita. A própria agência citou o uso fora das indicações aprovadas e eventos adversos como parte da preocupação regulatória.

Mounjaro ser moda não significa que seja fraude — mas moda também não é indicação

Essa talvez seja a distinção mais importante do artigo. A tirzepatida (Mounjaro®) é uma ferramenta terapêutica importante. Mas uma ferramenta médica deve ser usada porque há indicação, não porque está em evidência.

Há pessoas que respondem muito bem. Há outras que perdem menos peso do que esperavam, apresentam efeitos adversos, têm contraindicações ou precisam de outra estratégia. Isso vale também para semaglutida (Ozempic®/Wegovy®), liraglutida (Saxenda®) e demais medicamentos da classe.

Além disso, perder peso rapidamente sem cuidar da qualidade dessa perda pode trazer outro problema: redução de massa magra. Por isso, acompanhamento de composição corporal, ingestão proteica adequada, exercício resistido e avaliação clínica são partes importantes do tratamento. Veja também: semaglutida, tirzepatida e perda muscular: o que merece atenção.

Também é preciso pensar no longo prazo. Obesidade é uma doença crônica, e a interrupção de medicamentos pode ser acompanhada por recuperação de peso e piora de fatores cardiometabólicos. Esse tema está detalhado no artigo o que pode acontecer após interromper medicamentos baseados em GLP-1.

A verdadeira nova era é maior do que Mounjaro

Talvez o maior erro seja acreditar que a revolução se resume a uma marca. Não se resume.

Liraglutida (Saxenda®/Victoza®) ajudou a abrir caminho. Semaglutida (Ozempic®/Wegovy®/Rybelsus®) expandiu a eficácia e acumulou evidências cardiovasculares, renais e hepáticas. Tirzepatida (Mounjaro®) mostrou o potencial de combinar múltiplos receptores e elevar ainda mais a resposta média de perda de peso. Agora, uma nova geração de agonistas duplos, triplos e combinações hormonais está sendo estudada.

Isso é mais relevante do que a popularidade de qualquer caneta específica. Estamos vendo a transformação do tratamento da obesidade de um campo historicamente limitado para uma área com desenvolvimento farmacológico acelerado, desfechos clínicos importantes e possibilidade crescente de personalização.

A pergunta daqui para frente não será apenas “qual medicamento emagrece mais?”. Será: qual tratamento modifica melhor a doença e suas complicações naquela pessoa, com segurança, preservando massa muscular, funcionalidade e qualidade de vida ao longo dos anos?

Perguntas frequentes

Mounjaro® é um agonista de GLP-1?

A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro®, é um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1. Portanto, pertence à nova geração de terapias baseadas em incretinas, mas não é tecnicamente um agonista “puro” de GLP-1.

Ozempic® e Wegovy® são a mesma coisa?

Os dois contêm semaglutida, mas têm indicações, apresentações e esquemas regulatórios próprios. No Brasil, Ozempic® é associado principalmente ao tratamento do diabetes tipo 2, enquanto Wegovy® possui indicação para controle de peso e outras indicações aprovadas específicas. Eles não devem ser tratados como produtos intercambiáveis por conta própria.

Mounjaro® é aprovado para obesidade no Brasil?

Sim. A Anvisa aprovou em junho de 2025 uma nova indicação do Mounjaro® (tirzepatida) para controle crônico do peso em adultos que preencham os critérios estabelecidos, associado a dieta de baixa caloria e aumento de atividade física.

Todo paciente com obesidade precisa usar GLP-1?

Não. O tratamento da obesidade é individualizado. História clínica, grau de adiposidade, complicações, medicamentos em uso, risco cardiometabólico, preferências, custo, resposta prévia e contraindicações influenciam a escolha.

Qual é melhor: semaglutida ou tirzepatida?

Ensaios mostram diferenças médias de eficácia, inclusive em comparação direta, mas isso não determina automaticamente qual é a melhor escolha para uma pessoa específica. A decisão precisa considerar resposta, tolerabilidade, comorbidades, acesso e objetivos terapêuticos.

Conclusão

Os agonistas de GLP-1 e as terapias incretínicas de nova geração estão abrindo uma nova era porque mudaram o que esperamos do tratamento clínico da obesidade e passaram a interferir em desfechos cardiovasculares, renais, hepáticos e respiratórios.

O Mounjaro® (tirzepatida) virou moda porque reúne forte eficácia, aplicação semanal, enorme exposição pública e uma marca que passou a representar, no imaginário popular, essa nova fase do emagrecimento medicamentoso. Mas a ciência é maior do que a moda.

O futuro não será definido por uma “caneta da vez”, e sim pela capacidade de escolher o tratamento certo para a pessoa certa, no momento certo, dentro de uma estratégia de longo prazo para uma doença crônica.

Referências selecionadas

  1. Rosen CJ, Ingelfinger JR. GLP-1 Receptor Agonists. N Engl J Med. 2026;394:1313-1324. doi:10.1056/NEJMra2500106.
  2. Drucker DJ. The expanding landscape of GLP-1 medicines. Nature Medicine. 2026;32:47-57.
  3. Lincoff AM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. N Engl J Med. 2023;389:2221-2232.
  4. Perkovic V, et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2024;391:109-121.
  5. Sanyal AJ, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction–Associated Steatohepatitis. N Engl J Med. 2025;392:2089-2099.
  6. Aronne LJ, et al. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2025;393:26-36.
  7. Malhotra A, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. N Engl J Med. 2024;391:1193-1205.
  8. Anvisa. Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. 2025.
  9. JAMA Network Open. Longitudinal Analysis of Obesity Drug Use and Public Awareness. 2025.

Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

Está gostando do conteúdo? Compartilhe

Veja também

  • Diabetes
  • Emagrecimento e Saúde
  • Emagrecimento Estético
  • Medicina do Estilo de Vida
  • Metabolismo e Saúde Metabólica
  • Nutrologia e Composição Corporal
  • Obesidade
  • Saúde Digestiva e Microbiota
  • Saúde Hormonal e Menopausa
  • Saúde Óssea
  • Tireoide

Precisa de orientação médica?

Agende uma consulta e receba um tratamento personalizado para sua saúde.

Dr. Leônidas

Logotipo branco do Dr. Leônidas Silveira

Endocrinologista e Nutrólogo

Comprometido com a saúde

Acompanhamento individualizado

Cuidado humanizado

© 2026 Dr. Leônidas Tavares Silveira - Endocrinologia e Nutrologia. Todos os direitos reservados.

Dr. Leônidas Silveira | Médico | CRM-RJ 52.86694-6 | Endocrinologia e Metabologia — RQE 29298 | Nutrologia — RQE 24876