Medicamentos para obesidade não formam uma lista em que todos servem para a mesma pessoa. Há opções que atuam na absorção de gordura, outras regulam fome e saciedade, algumas modulam o sistema de recompensa e outras são úteis quando existe compulsão alimentar, diabetes, pré-diabetes ou outra condição associada.
Também existe uma diferença decisiva entre uso on label e off label. O primeiro segue uma indicação aprovada em bula pela agência reguladora. O segundo utiliza um medicamento aprovado para outra finalidade, com base em raciocínio clínico e evidências, mas fora da indicação formal da bula. Uso off label não significa automaticamente uso errado; significa que a justificativa, a conversa sobre incertezas e o acompanhamento precisam ser ainda mais cuidadosos.
Este guia, atualizado em outubro de 2026, explica as principais opções reconhecidas pelo leitor por seus nomes comerciais. As marcas são citadas apenas para facilitar a identificação: não representam preferência, prescrição ou recomendação de compra.
Medicamentos para obesidade: mapa rápido
| Princípio ativo | Nome comercial conhecido | Situação no cuidado do peso |
|---|---|---|
| Orlistate | Xenical | Aprovado para obesidade no Brasil |
| Naltrexona + bupropiona | Contrave | Aprovado para obesidade no Brasil |
| Liraglutida | Saxenda | Aprovada para obesidade no Brasil |
| Semaglutida | Wegovy | Aprovada para obesidade no Brasil |
| Tirzepatida | Mounjaro | Aprovada para obesidade no Brasil desde 2025 |
| Sibutramina | Biomag e genéricos | Aprovada para obesidade no Brasil, com controle especial |
| Lisdexanfetamina | Venvanse, Juneve | Aprovada para TCA; não para emagrecimento |
| Topiramato | Topamax | Uso off label em situações selecionadas |
| Fluoxetina | Prozac, Daforin | Trata indicações psiquiátricas; não é antiobesidade |
| Sertralina | Zoloft, Assert | Trata indicações psiquiátricas; não é antiobesidade |
| Metformina | Glifage | Pode ajudar em contextos metabólicos; efeito de peso modesto |
| Dapagliflozina | Forxiga | Indicada para diabetes, coração ou rim; não para obesidade |
Quais medicamentos têm indicação aprovada para obesidade no Brasil?
A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade da ABESO, de 2026, reúne seis opções aprovadas no país: orlistate, sibutramina, naltrexona associada à bupropiona, liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Elas têm mecanismos, potências, riscos e perfis de paciente bastante diferentes.
Orlistate — Xenical e genéricos
O orlistate age no intestino, reduzindo a absorção de parte da gordura ingerida. Diferentemente dos medicamentos que atuam no cérebro ou em hormônios de saciedade, ele praticamente não tem ação sistêmica.
Pode ser útil quando se busca uma opção oral e o padrão alimentar permite boa adaptação. O principal limite são os efeitos gastrointestinais — urgência evacuatória, gases com eliminação de óleo e fezes gordurosas — mais prováveis após refeições com muita gordura. Também pode reduzir a absorção de vitaminas lipossolúveis e exige atenção a interações e a situações clínicas específicas.
Naltrexona + bupropiona — Contrave; Mysimba em parte da Europa
Essa combinação atua em circuitos relacionados à fome, saciedade, recompensa e impulso alimentar. Em determinados pacientes, pode ser especialmente interessante quando o comer por recompensa, a vontade persistente de alimentos muito palatáveis ou a dificuldade de controlar impulsos têm papel relevante.
Não deve ser confundida com tratamento universal para “ansiedade que engorda”. Há contraindicações importantes: hipertensão não controlada, história de convulsão, anorexia ou bulimia nervosa e uso de opioides, entre outras. Em 2026, recomendações regulatórias reforçaram a necessidade de reavaliar periodicamente resposta, tolerabilidade e risco cardiovascular.
Liraglutida — Saxenda; Olire e genéricos
A liraglutida é um agonista do receptor de GLP-1 aplicado diariamente. Aumenta a saciedade, reduz a fome e ajuda a diminuir a ingestão calórica. Saxenda é a marca historicamente ligada ao tratamento da obesidade; Victoza contém a mesma molécula, mas foi desenvolvido e registrado para diabetes tipo 2. Em 2026, a Anvisa também aprovou genéricos de liraglutida com referência para obesidade.
Náuseas, constipação, diarreia e desconforto abdominal podem ocorrer, especialmente durante a adaptação. História clínica, uso de outras medicações e contraindicações precisam ser revisados antes da prescrição.
Semaglutida — Wegovy; Ozempic e Rybelsus têm outras indicações
A semaglutida também age no receptor de GLP-1, com efeito sobre saciedade, fome e controle da ingestão. No Brasil, Wegovy é a apresentação com indicação para controle crônico do peso. Ozempic injetável e Rybelsus oral são nomes muito conhecidos, mas suas indicações originais são relacionadas ao diabetes tipo 2; usá-los exclusivamente para obesidade não é a mesma coisa que prescrever Wegovy dentro da bula.
Além da redução de peso média observada nos estudos, a semaglutida possui evidências em desfechos cardiometabólicos para grupos específicos. Isso não elimina a necessidade de individualizar riscos gastrointestinais, doença da vesícula, pancreatite prévia, retinopatia em certos contextos e contraindicações previstas em bula.
Para entender por que a resposta não é igual em todos, leia também: por que semaglutida e tirzepatida não emagrecem todo mundo da mesma forma.
Tirzepatida — Mounjaro no Brasil; Zepbound nos Estados Unidos
A tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1. No Brasil, a Anvisa ampliou em junho de 2025 a indicação do Mounjaro para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou com sobrepeso associado a pelo menos uma complicação relacionada ao peso. Portanto, afirmar que Mounjaro é sempre off label para obesidade no Brasil ficou desatualizado.
É uma opção de alta potência média, mas não “emagrece todo mundo” nem dispensa planejamento alimentar, exercício, sono, acompanhamento e estratégia para preservação de massa muscular. Náusea, constipação, diarreia e outros efeitos gastrointestinais são frequentes; existem ainda contraindicações e precauções específicas. Nos Estados Unidos, a marca aprovada para obesidade é Zepbound.
Veja também: Mounjaro emagrece todo mundo? e como os agonistas de GLP-1 mudaram o tratamento metabólico.
Sibutramina — genéricos e marcas como Biomag; Reductil é um nome histórico
A sibutramina aumenta a sinalização de noradrenalina e serotonina em áreas relacionadas à saciedade. Continua aprovada no Brasil para pacientes selecionados, embora tenha sido retirada de vários outros mercados após resultados cardiovasculares desfavoráveis em pessoas de alto risco.
Por isso, sua indicação exige triagem cardiovascular criteriosa, acompanhamento de pressão arterial e frequência cardíaca e respeito às contraindicações. É medicamento sujeito a controle especial no Brasil. Não deve ser escolhida apenas por ser oral ou mais acessível.
Lisdexanfetamina: tratamento do TCA, não um medicamento aprovado para obesidade
A lisdexanfetamina — conhecida por marcas como Venvanse e Juneve, além dos genéricos — tem indicação para transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e para transtorno da compulsão alimentar (TCA) moderado a grave em adultos. Ela reduz a frequência dos episódios de compulsão e pode levar a perda de peso em parte dos pacientes, mas não é aprovada como medicamento para emagrecer.
Essa distinção não diminui sua relevância no cuidado da obesidade. O TCA pode participar da origem ou da manutenção do ganho de peso em uma parcela dos pacientes. Nesses casos, tratar o transtorno alimentar faz parte do tratamento global. Ainda assim, o objetivo principal da lisdexanfetamina é controlar a compulsão, e não atingir um número na balança. Risco cardiovascular, insônia, ansiedade, potencial de uso inadequado e outras contraindicações precisam ser avaliados.
Também é importante não confundir TCA com bulimia nervosa, beliscar ao longo do dia ou episódios ocasionais de comer em excesso. O diagnóstico depende de critérios clínicos. Aprofunde esse ponto no artigo compulsão alimentar, Mounjaro e emagrecimento.
Medicamentos usados off label: quando podem fazer sentido?
O grupo abaixo reúne fármacos que podem aparecer no cuidado de pacientes com excesso de peso, mas não são equivalentes aos medicamentos aprovados para obesidade. Em alguns casos, o benefício vem do tratamento de uma doença associada; em outros, existe efeito sobre apetite, compulsão ou prevenção de ganho de peso. A expectativa precisa ser proporcional à evidência.
Topiramato — Topamax e genéricos
O topiramato é aprovado para epilepsia e prevenção de enxaqueca. Pode reduzir apetite, episódios de compulsão e peso, razão pela qual é utilizado off label em situações selecionadas. Nos Estados Unidos, a combinação de fentermina com topiramato de liberação prolongada é aprovada para obesidade com a marca Qsymia; o topiramato isolado não ganha, por isso, indicação automática para obesidade.
Parestesias, alteração do paladar, lentificação cognitiva, dificuldade para encontrar palavras, cálculos renais e risco fetal são preocupações relevantes. Em mulheres com possibilidade de gestação, planejamento contraceptivo é indispensável.
Fluoxetina — Prozac, Daforin e genéricos
A fluoxetina é um antidepressivo com indicações psiquiátricas e também pode ser utilizada no tratamento da bulimia nervosa. Algumas pessoas perdem peso no início, mas esse efeito costuma ser modesto e pode não se manter. Quando há depressão, ansiedade, bulimia ou outro diagnóstico apropriado, a escolha pode considerar o perfil de peso; prescrevê-la apenas como “emagrecedor” é outra situação, com benefício incerto.
Sertralina — Zoloft, Assert e genéricos
A sertralina é usada para depressão, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e outras condições. Pode ajudar sintomas emocionais que interferem no comportamento alimentar, mas não é medicamento antiobesidade. O efeito sobre o peso varia: algumas pessoas perdem, outras permanecem estáveis e outras ganham peso ao longo do tempo.
Metformina — Glifage e genéricos
A metformina é um dos pilares do tratamento do diabetes tipo 2 e pode ser útil em pré-diabetes de alto risco, síndrome dos ovários policísticos e prevenção ou manejo de ganho de peso associado a alguns psicotrópicos. Em pessoas sem diabetes, a perda de peso média tende a ser modesta e a evidência é menos robusta do que para os medicamentos aprovados para obesidade.
Desconforto gastrointestinal é comum no início. Uso prolongado pode contribuir para deficiência de vitamina B12, e a função renal precisa ser considerada.
Dapagliflozina — Forxiga
A dapagliflozina pertence aos inibidores de SGLT2. É indicada para diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca e doença renal crônica em perfis definidos. Ao aumentar a eliminação de glicose pela urina, costuma produzir uma redução de peso pequena, mas não deve ser apresentada como medicamento para obesidade.
Infecções genitais, desidratação e cetoacidose — inclusive com glicemia não muito elevada — estão entre os riscos que exigem orientação. Seu lugar é tratar a condição metabólica, cardíaca ou renal correta; a mudança de peso é um efeito adicional.
Como escolher entre opções tão diferentes?
A pergunta útil não é “qual é o mais forte?”, mas “qual opção oferece a melhor relação entre benefício, risco, custo, acesso e possibilidade de manutenção para esta pessoa?”. A decisão considera, entre outros pontos:
- grau e estágio da obesidade, distribuição de gordura e composição corporal;
- diabetes, pré-diabetes, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular, renal ou hepática;
- fome, saciedade, episódios de compulsão e padrão de recompensa alimentar;
- história de depressão, ansiedade, transtornos alimentares, enxaqueca ou epilepsia;
- medicações que favorecem ganho de peso;
- planejamento gestacional, contraindicações e interações;
- resposta, tolerabilidade, custo e possibilidade real de continuidade.
Em geral, farmacoterapia é considerada em adultos com IMC igual ou superior a 30 kg/m², ou a partir de 27 kg/m² quando há complicações relacionadas ao peso. A diretriz brasileira de 2026 ressalta, porém, que o IMC não deve ser o único dado: excesso e distribuição de gordura, repercussões clínicas e estágio da doença também importam.
Isso se conecta a uma ideia central: emagrecer não é o mesmo que tratar a obesidade. O plano precisa incluir manutenção do peso, alimentação, atividade física, sono, comportamento, saúde mental e proteção da massa muscular.
O que já foi aprovado nos Estados Unidos e em outros países?
As aprovações não são iguais em todos os lugares. Um medicamento autorizado pela FDA ou pela agência europeia não passa a estar automaticamente aprovado ou disponível no Brasil.
- Estados Unidos: além de orlistate, naltrexona/bupropiona, liraglutida, semaglutida e tirzepatida, há fentermina/topiramato (Qsymia), alguns anorexígenos simpatomiméticos para uso de curto prazo e setmelanotida (Imcivree) para formas genéticas raras de obesidade.
- Semaglutida oral: o FDA aprovou Wegovy em comprimidos para controle crônico do peso; essa aprovação não transforma Rybelsus, com apresentação e indicação próprias, em produto equivalente para obesidade.
- Orforgliprona — Foundayo: agonista oral não peptídico do receptor de GLP-1, aprovado pelo FDA em abril de 2026 para adultos com obesidade ou sobrepeso com complicação relacionada. Ainda não é uma opção aprovada no Brasil.
- Europa: aparecem nomes como Mysimba para naltrexona/bupropiona, além de Saxenda, Wegovy, Mounjaro e orlistate, com critérios regulatórios próprios.
- China: a mazdutida, agonista dual de glucagon e GLP-1, recebeu aprovação para controle crônico do peso em 2025. Ela não tem aprovação brasileira.
Essas diferenças mostram por que não basta ler que uma substância “foi aprovada”. É necessário saber onde, para qual população, com qual apresentação e para qual indicação.
Quais medicamentos para obesidade estão em fase 3?
Fase 3 é a etapa de estudos grandes que costuma anteceder um pedido de registro. Não significa aprovação, disponibilidade ou segurança já estabelecida para uso fora de pesquisa. Em outubro de 2026, os principais programas incluem:
- Retatrutida: agonista triplo de GIP, GLP-1 e glucagon, estudado no programa TRIUMPH. Alguns ensaios de fase 3 já divulgaram resultados, mas a molécula permanece experimental e legalmente disponível apenas em estudos clínicos. Leia a análise específica sobre retatrutida em fase 3.
- CagriSema: combinação semanal de cagrilintida, um análogo de amilina, com semaglutida. O desenvolvimento de fase 3 foi concluído para obesidade e o produto entrou em processo regulatório em alguns mercados, sem aprovação até esta atualização.
- Cagrilintida isolada: análogo de amilina que avançou para fase 3 em obesidade.
- Zenagamtida, antes chamada amycretin: molécula que combina ação em GLP-1 e receptor de amilina, em desenvolvimento de fase 3 nas formas injetável e oral.
- Survodutida: agonista dual de GLP-1 e glucagon, avaliado no programa SYNCHRONIZE. Resultados de fase 3 foram apresentados, mas o medicamento continua não aprovado.
- Maridebart cafraglutida, ou MariTide: conjugado anticorpo-peptídeo que bloqueia o receptor de GIP e ativa o receptor de GLP-1, estudado no programa MARITIME com aplicação mensal ou potencialmente menos frequente.
- VK2735: agonista dual de GIP e GLP-1 em estudos de fase 3, com desenvolvimento de formulações injetável e oral.
Resultados iniciais promissores não devem ser convertidos em promessa clínica. Comparações entre estudos diferentes são frágeis, e dados divulgados por fabricantes antes da publicação completa exigem cautela adicional. Produtos vendidos pela internet como “retatrutida”, “survodutida” ou “peptídeos de pesquisa” não equivalem a medicamentos aprovados.
O ponto que não pode se perder
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. O medicamento pode ser decisivo, mas não substitui diagnóstico, definição de metas clínicas, manejo de efeitos adversos, acompanhamento da composição corporal e estratégia de longo prazo. Também não é razoável concluir que uma pessoa “falhou” porque não respondeu a uma molécula: mecanismos, tolerabilidade e objetivos variam.
Um tratamento bem estruturado combina a opção farmacológica adequada — quando indicada — com cuidado nutricional, exercício, sono, comportamento e saúde mental. Na página de emagrecimento e no Método EmagreSER, explico como esses componentes podem ser organizados. Para quem está fora de Bom Jesus do Itabapoana, a avaliação também pode ser realizada por telemedicina em todo o Brasil.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta. Não inicie, associe, interrompa ou troque medicamentos sem avaliação médica individual.
Referências e fontes consultadas
- ABESO. Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, 2026.
- Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação para controle crônico do peso.
- Anvisa. Wegovy (semaglutida).
- Organização Mundial da Saúde. Diretriz sobre terapias GLP-1 no tratamento da obesidade em adultos, 2025.
- FDA. Aprovação de Zepbound (tirzepatida) para controle crônico do peso.
- FDA. Aprovação de Foundayo (orforgliprona), 2026.
- FDA. Carta de aprovação de Wegovy em comprimidos.
- FDA. Setmelanotida para formas genéticas raras de obesidade.
- Eli Lilly. Programa de fase 3 TRIUMPH com retatrutida, 2026.
- Novo Nordisk. Pipeline de CagriSema, cagrilintida e zenagamtida.
- Boehringer Ingelheim. Programa de fase 3 SYNCHRONIZE com survodutida.
- Amgen. Programa de fase 3 MARITIME com MariTide.
- Viking Therapeutics. Desenvolvimento de fase 3 do VK2735.
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

