Uma dúvida tem aparecido cada vez mais no consultório e nas redes sociais: Mounjaro® causa queda de cabelo?
A resposta mais correta não é simplesmente “sim” ou “não”. A tirzepatida (Mounjaro®) já tem a queda de cabelo descrita entre os eventos adversos observados nos estudos usados para tratamento da obesidade. Ao mesmo tempo, os dados atuais sugerem que, em muitos pacientes, a queda provavelmente não ocorre por uma toxicidade direta do medicamento sobre o folículo capilar. O cenário parece ser mais complexo e frequentemente envolve perda de peso rápida, redução importante da ingestão alimentar, alterações nutricionais e eflúvio telógeno.
Isso é importante porque a conduta muda completamente. Suspender um tratamento eficaz sem investigar a verdadeira causa da queda pode ser tão inadequado quanto ignorar um quadro capilar persistente.
A queda de cabelo está descrita com tirzepatida?
Sim. Quando a Anvisa aprovou a nova indicação do Mounjaro® (tirzepatida) para controle crônico do peso no Brasil, em 2025, informou que os estudos SURMOUNT identificaram alguns eventos adversos adicionais em relação aos estudos anteriores de diabetes. Entre eles estava a queda de cabelo, posteriormente incorporada às informações do produto.
Os dados da bula norte-americana atual da tirzepatida para obesidade ajudam a dimensionar esse efeito. Nos estudos de redução de peso, a queda de cabelo apareceu entre os eventos adversos relatados, e a própria documentação regulatória afirma que esses episódios estavam associados à redução de peso.
Outro dado chama atenção: entre os participantes que receberam tirzepatida, a queda foi relatada em 7,1% das mulheres e 0,5% dos homens. No placebo, os números foram 1,3% e 0%, respectivamente. Esses resultados não significam que toda mulher que usa Mounjaro terá queda de cabelo, mas mostram que o fenômeno é real e merece ser reconhecido.
Então o Mounjaro ataca diretamente o cabelo?
Até o momento, isso não está demonstrado.
Revisões publicadas em 2025 e 2026 encontraram um sinal consistente de maior ocorrência de queda capilar entre usuários de alguns medicamentos baseados em GLP-1, principalmente semaglutida e tirzepatida. Porém, ainda faltam estudos prospectivos desenhados especificamente para responder se existe efeito tóxico direto do medicamento sobre o folículo.
Uma revisão sistemática recente reuniu 24 estudos e encontrou eflúvio telógeno e alopecia androgenética entre os padrões mais frequentemente relatados. Os autores destacaram a perda rápida de peso como um mecanismo plausível importante, especialmente com tirzepatida, mas ressaltaram que ainda faltam estudos prospectivos capazes de estabelecer causalidade e relação temporal com maior segurança.
Uma meta-análise publicada em 2026 também encontrou associação entre medicamentos dessa classe e alopecias não cicatriciais, incluindo eflúvio telógeno e alopecia androgenética. Associação, no entanto, não prova que o medicamento seja a única causa. O emagrecimento, a ingestão alimentar e características individuais podem atuar como mediadores.
O eflúvio telógeno provavelmente explica muitos desses casos
O cabelo não responde imediatamente a uma mudança metabólica. Existe um ciclo de crescimento, transição e repouso do folículo. Quando o organismo passa por um estresse importante — uma infecção, cirurgia, parto, restrição alimentar ou perda rápida de peso — uma quantidade maior de fios pode entrar simultaneamente na fase de repouso.
O resultado é o eflúvio telógeno: uma queda difusa, muitas vezes intensa e assustadora, que costuma começar algumas semanas ou meses depois do evento desencadeante.
A perda importante de peso é reconhecida como um dos gatilhos clássicos de aumento temporário da queda. Um estudo dermatológico publicado em 2024 reforça a relação entre emagrecimento e eflúvio telógeno. Como o ciclo do fio não responde imediatamente ao gatilho, a queda pode surgir semanas ou meses depois. Isso explica por que uma paciente pode iniciar Mounjaro®, perder peso rapidamente e só perceber a queda capilar quando o emagrecimento já está bem estabelecido.
Nesse cenário, a tirzepatida pode estar relacionada à queda indiretamente, por produzir uma mudança metabólica e ponderal importante, em vez de necessariamente lesar o cabelo.
Perder muito peso em pouco tempo pode ser parte do problema
Nos estudos SURMOUNT, a tirzepatida produziu reduções de peso muito superiores às obtidas historicamente com a maioria das terapias farmacológicas para obesidade. Essa eficácia é justamente uma das razões pelas quais Mounjaro® e outras terapias incretínicas estão mudando o tratamento da obesidade.
Mas emagrecer mais não significa que o organismo deva ser conduzido à maior velocidade possível.
Quando a perda de peso vem acompanhada de ingestão calórica excessivamente baixa, pouca proteína, náuseas persistentes, vômitos ou grande redução da variedade alimentar, o risco de inadequação nutricional aumenta. Ferro, zinco, vitamina B12, vitamina D e outros nutrientes podem entrar na investigação conforme a história clínica, mas não existe justificativa para suplementar tudo indiscriminadamente.
Esse é o mesmo princípio que discutimos no artigo sobre quando vitaminas realmente precisam ser suplementadas: primeiro identificar risco ou deficiência; depois corrigir o que de fato está inadequado.
Nem toda queda durante o uso de Mounjaro é eflúvio telógeno
Esse é um ponto fundamental. A coincidência temporal pode levar o paciente a atribuir qualquer queda à medicação, mas existem muitas outras causas possíveis.
A alopecia androgenética, por exemplo, é extremamente comum. Em pessoas predispostas, um eflúvio intenso pode tornar mais evidente uma rarefação que já estava começando. Em vez de uma única doença, o paciente pode ter eflúvio telógeno e alopecia androgenética ao mesmo tempo.
Também precisam ser consideradas, conforme o caso:
- deficiência de ferro ou anemia;
- ingestão insuficiente de proteínas e energia;
- alterações da tireoide;
- pós-parto;
- febre ou doença sistêmica recente;
- cirurgias;
- estresse físico ou emocional intenso;
- mudanças hormonais;
- outros medicamentos;
- alopecia areata e doenças inflamatórias ou cicatriciais do couro cabeludo.
Por isso, se a queda vier acompanhada de cansaço, alterações de peso não explicadas, intolerância ao frio, mudanças intestinais ou outros sintomas, pode ser necessário também investigar a função tireoidiana. Há mais detalhes no artigo sobre quando sintomas podem justificar investigação da tireoide.
Como diferenciar um eflúvio de uma queda que merece investigação mais rápida?
No eflúvio telógeno típico, a pessoa percebe fios em maior quantidade no banho, travesseiro, escova e roupas. A queda tende a ser difusa, sem uma placa totalmente sem cabelo e, em geral, sem inflamação importante do couro cabeludo.
Já uma avaliação mais rápida é especialmente importante quando aparecem:
- falhas bem delimitadas;
- dor, ardência intensa, descamação ou inflamação do couro cabeludo;
- sinais de cicatriz ou perda dos óstios foliculares;
- queda de sobrancelhas ou outros pelos;
- progressão contínua por muitos meses;
- rarefação com padrão típico de alopecia androgenética;
- queda muito intensa sem perda de peso relevante ou outro gatilho evidente.
O que investigar quando o cabelo começa a cair durante o tratamento?
Não existe um painel universal de exames para todos. A avaliação começa pela história: quando a queda começou, quanto peso foi perdido, em quanto tempo, como está a alimentação, se houve infecção, cirurgia, estresse, mudança hormonal ou introdução de outros medicamentos.
Dependendo do quadro, podem ser úteis exames como hemograma, ferritina e avaliação da função tireoidiana. Outros nutrientes — como vitamina B12, vitamina D e zinco — devem ser investigados de maneira direcionada conforme alimentação, sintomas, comorbidades e risco de deficiência.
Também é importante avaliar se o processo de emagrecimento está preservando massa magra. Quando há grande restrição alimentar, o problema não é apenas o cabelo: músculo também pode ser perdido. Esse tema está detalhado no artigo sobre semaglutida, tirzepatida e perda de massa muscular.
Preciso parar o Mounjaro se o cabelo começar a cair?
Não automaticamente.
Essa é provavelmente a orientação mais importante. Queda capilar isolada não deve levar o paciente a interromper Mounjaro® por conta própria.
Se o quadro for eflúvio telógeno associado à perda rápida de peso, o caminho pode ser ajustar a estratégia de emagrecimento, corrigir inadequações alimentares, tratar deficiências documentadas e acompanhar a recuperação do ciclo capilar. Quando há alopecia androgenética associada, o tratamento dermatológico específico pode ser necessário.
Em alguns casos, também pode fazer sentido reconsiderar a velocidade de perda de peso, tolerabilidade gastrointestinal ou dose utilizada. Isso deve ser feito dentro de uma avaliação clínica, considerando o benefício que a tirzepatida está proporcionando no tratamento da obesidade.
O objetivo do tratamento médico da obesidade não é fazer o peso cair o mais rápido possível. É produzir melhora metabólica sustentável, preservar massa muscular, manter adequada ingestão de nutrientes e minimizar efeitos adversos.
O cabelo costuma voltar?
Quando a causa principal é um eflúvio telógeno agudo e o gatilho é corrigido, o prognóstico costuma ser favorável. A queda geralmente diminui gradualmente, mas a recuperação visual do volume leva tempo porque o fio precisa reiniciar seu ciclo de crescimento.
A American Academy of Dermatology informa que, após o organismo se readaptar, o excesso de queda tende a cessar e a densidade pode recuperar-se progressivamente ao longo de meses. Isso não significa que todo caso relacionado ao uso de tirzepatida seguirá exatamente esse curso, principalmente se houver deficiência persistente ou alopecia androgenética concomitante.
O ponto principal: tratar obesidade não é trocar peso por cabelo
A associação entre Mounjaro® e queda capilar merece ser levada a sério, mas não deve ser transformada em alarmismo.
A tirzepatida é uma ferramenta importante no tratamento da obesidade e produz benefícios metabólicos relevantes em pacientes adequadamente selecionados. A queda de cabelo pode ocorrer, está reconhecida nas informações regulatórias e parece ser mais frequente em mulheres. Ao mesmo tempo, a melhor evidência disponível sugere que parte importante desse fenômeno pode estar ligada à magnitude e à velocidade do emagrecimento e às mudanças nutricionais que acompanham o processo.
Por isso, a pergunta correta não é apenas “Mounjaro faz o cabelo cair?”. É: qual é o tipo de queda, quando começou, quanto peso foi perdido, como está a alimentação e existe outra causa que precisa ser tratada?
É essa investigação que diferencia um efeito temporário de um problema capilar que exige tratamento específico.
Perguntas frequentes
Quanto tempo depois de começar Mounjaro a queda pode aparecer?
Quando o mecanismo é eflúvio telógeno, a queda costuma aparecer cerca de dois a três meses depois do gatilho, que pode ser a perda rápida de peso ou outra mudança fisiológica importante. O intervalo varia entre indivíduos.
A queda acontece porque falta vitamina?
Nem sempre. Deficiências nutricionais podem contribuir, principalmente quando há restrição alimentar importante, mas a queda também pode ocorrer pelo próprio estresse metabólico da perda rápida de peso. Suplementar sem identificar deficiência não é a melhor estratégia.
Biotina resolve?
Não há justificativa para tratar toda queda capilar com biotina. A deficiência verdadeira é incomum, e doses elevadas podem interferir em alguns exames laboratoriais. O tratamento deve ser direcionado à causa identificada.
Minoxidil é necessário?
Depende do diagnóstico. Eflúvio telógeno isolado frequentemente melhora com correção do gatilho. Quando existe alopecia androgenética concomitante, minoxidil ou outras terapias podem ser considerados pelo profissional responsável.
Parar Mounjaro faz o cabelo voltar mais rápido?
Não necessariamente. Se a queda estiver relacionada ao eflúvio desencadeado pela perda de peso, o ciclo capilar pode continuar por algum tempo mesmo após uma mudança na medicação. A decisão de manter, ajustar ou interromper tirzepatida deve considerar todo o tratamento da obesidade e ser individualizada.
Referências selecionadas
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. 2025.
- U.S. Food and Drug Administration. Zepbound® (tirzepatide) Prescribing Information. Revised 2025.
- GLP-1 therapies and hair loss: a systematic review of current evidence and implications for counseling. 2026. PMID: 41998799.
- GLP-1 Receptor Agonists and Alopecia: A Systematic Review and Meta-Analysis of Incidence, Risk, Subtypes, and Mechanisms. 2026. PMID: 42621629.
- Burke O, et al. Glucagon-like peptide-1 receptor agonist medications and hair loss: a retrospective cohort study. J Am Acad Dermatol. 2025;92(5):1141-1143.
- Kang DH, et al. Telogen Effluvium Associated With Weight Loss: A Single Center Retrospective Study. Ann Dermatol. 2024;36(6):384-388.
- American Academy of Dermatology. Do you have hair loss or hair shedding?
Dr. Leônidas Silveira
Endocrinologia e Metabologia | Nutrologia
CRM-RJ 52.86694-6
RQE 29298 | RQE 24876

